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PEARL JAM
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ARTIGO: " ' Ten' plus Ten", SPI - 2001




Se há uma coisa que os seguranças não toleram, é um cara que não se comporta.

Eddie Vedder, um cantor de cabelos longos desalinhados, com uma voz profunda, dominante; posicionado no topo de uma coluna de amplificadores cambaleantes, em frente à uma multidão no Seattle Center Mural Amphitheater e gritando com todo o ar dos pulmões.

Era 23 de agosto de 1991. Muitas pessoas no Noroeste dos Estados Unidos ainda não tinham ouvido o Pearl Jam, uma nova banda de Seattle destinada a se tornar um dos grupos de rock mais populares da América. Mas havia uns murmúrios sobre a banda; que tinha dois membros originais das bandas de Seattle - Green River e Mother Love Bone - e um cantor surfista de San Diego. Era o suficiente para aumentar o público para mais de 4000 pessoas indo assistir ao primeiro show aberto do grupo.

"Nós tínhamos uma lista de regras que nós dávamos às bandas" , disse Jeff Gilbert, que agendou esse show como parte de uma série de concertos anuais chamados "A Pain in the Grass".

"Uma das regras era: 'Por favor, não suba nos amplificadores.' Porque nós não tínhamos nenhum jeito de mantê-los firmes em pé. E eles poderiam cair para baixo."

Vedder, cujo senso de equilíbrio veio de anos surfando em praias californianas, estava disposto a correr o risco de subir até o topo de uma coluna de amplificadores cambaleantes. "Eu me lembro de quando ele começou a subir lá. Nossa equipe correu até lá e formou uma rede humana embaixo" , disse Gilbert.

"Havia cinco caras da equipe esperando ele cair para um lado, porque os amplicadores balançavam da esquerda para a direita. Ele estava surfando neles. E havia mais quatro ou cinco caras esperando para segurar os amplificadores, que pesavam uma tonelada. Mas, como mágica, nada aconteceu."

Poucos sabiam que a Epic Records escolheu aquele dia, há dez anos, para dar uma festa na redondeza para o lançamento do primeiro álbum do grupo, o 'Ten'. Muitos aparecereram porque era um show gratuito em uma noite quente de verão. E alguns nem sabiam quem estava indo tocar. A banda tinha mudado de nome recentemente, passando de Mookie Blaylock para Pearl Jam, em referência à avó de Vedder, Pearl, e à uma espécie de geléia (jam) alucinógena que ela aparentemente fazia.

Sem se dar conta, o público estava testemunhando o nascimento de um supergrupo, cujo legado inclui um número astronômico de álbuns, incluindo a histórica série de CDs ao vivo da última turnê, no ano passado; concertos beneficentes para organizações filantrópicas regionais e nacionais e um forte compromisso com o ativismo social.

Ao longo do caminho, o Pearl Jam - entre as maiores estrelas da chamada era 'grunge' - tem ganho fãs e apoiadores, com sua música bem comprometida, sua batalha de Davi e Golias com a Ticketmaster e a força com que lidaram com a tragédia que ocorreu no último verão na Dinamarca, onde 9 fãs morreram durante uma apresentação no Festival de Roskilde.

"Naquela apresentação isolada no Seattle Center, você constatava tudo que faria deles uma ótima banda" , disse Gilbert, hoje um editor da revista Guitar World. "Era uma das apresentações mais puras e honestas que eu já vi de uma banda de Seattle. Não havia expectativas. Eles não tinham que provar nada. Eles apenas vieram e fizeram o show."

Vedder ficou eufórico após o show no Seattle Center. Mas nem todos da banda ficaram satisfeitos com a apresentação.

"Foi terrível" , disse o guitarrista Stone Gossard, rindo. "Eu me lembro de sofrer pensando sobre aquele show. Deus, que porcaria. Eu esperava que fosse ser melhor."

Gossard admitiu que foi o único a se sentir assim.

"Eu estava tão preocupado, que provavelmente não toquei bem. Mas talvez ninguém nem tenha notado. Eu devo ter passado despercebido."

Depois, os membros da banda - Vedder, Gossard, Jeff Ament, Mike McCready e o recém contratado Dave Abbruzzese - foram para a casa noturna Phantom, onde hoje fica o dance club Polly Ester, para uma festa de lançamento do primeiro disco deles.

Vindos do bem inspirado show no Seattle Center, a festa de lançamento do disco 'Ten', foi um desapontamento - um desajeitado agrado para apresentar 'Ten' e permitir que a mídia, divulgadores, vendedores e representantes de gravadoras pudessem conhecer a banda. A banda parecia embaraçada, não sabendo como lidar com a situação.

Á época, ninguém podia prever que 'Ten', gravado nos estúdios London Bridges, em Seattle, com o produtor Rick Parashar, se tornaria, alguns meses depois, um dos álbuns de maior vendagem na América, fazendo do Pearl Jam um fenômeno internacional. Ao final da década de 90, 'Ten' tinha vendido mais que 11 milhões de cópias.

"Eu acho que nós todos nos sentimos bem com o álbum" , disse Gossard. "Mas não sentimos como se ele fosse o álbum definitivo, de jeito nenhum. Eu acho que nós pensamos: 'uau, fizemos o disco do jeito que queríamos, as pessoas estão indo nos ver tocar e, naquele ponto, o Mother Love Bone estava nos ajudando a ter alguma atenção'. Assim, nós estávamos achando positivo."

A diretora musical da rádio KISW, Cathy Faulkner, se tornou uma entusiasmada apoiadora da banda. Ela viu como o álbum, com sua coleção de riffs poderosos, pegou fogo em Seattle e depois no resto do mundo.

" 'Ten' não explodiu da noite para o dia como o 'Nevermind' do Nirvana" , ela disse. "Se você verificar, foi devagar, constante, uma onda crescente. E isso revela quando que as pessoas estão apaixonadas pela música; eles dizem para seus amigos e esses amigos falam para mais dois amigos. E ver isso crescer, foi contagioso."

Embora o grupo fosse influenciado pelo som de Seattle, pelo punk e pelo rock alternativo, as canções lembravam os clássicos MC5 e The Doors. Mas nem todos se apaixonaram pelo grupo. Kurt Cobain os acusou de pegarem uma carona no grunge.

JUNTOS NOS ANOS 90

A história do Pearl Jam começou em 1990, quando Gossard e Ament se juntaram a McCready para tocarem juntos e trabalharem em algumas canções. Gossard e Ament ainda estavam lidando com o fim do Mother Love Bone, que acabou após a morte ocasionada por overdose de heroína do vocalista Andy Wood, que mais tarde foi homenageado com o álbum tributo chamado 'Temple of the Dog'.

Com a ajuda do baterista do Soundgarden Matt Cameron (que se juntou ao Pearl Jam no final dos anos 90), Gossard, Ament e McCready gravaram uma fita-demo com 3 canções.

Outro futuro baterista do Pearl Jam, Jack Irons (ex-Eleven e Red Hot Chili Peppers), passou a fita para um amigo dele na Califórnia, Vedder, que, com inspiração de uma noite sem dormir, acrescentou suas letras e o vocal às canções da fita-demo, criando uma 'mini-ópera' pessoal, que chamou a atenção de seus futuros companheiros de banda em Seattle.

Uma das canções era 'Alive', revelando sua inquietação emocional resultante da revelação feita por sua mãe de que o homem com quem ele cresceu não era seu pai verdadeiro; sem saber, seu pai biológico havia morrido quando ele tinha 13 anos:

' Son, she said / Have I got a little story for you / What you thought was your daddy / Was nothin' but a fuck fool / While you were sittin' home about age 13 / Your real daddy was dyin'/ Sorry you didn't see him / But I'm glad we talk...'

"Eu acho que a primeira vez que nós vimos Ed cantar, nós sabíamos que tínhamos algo especial" , disse o empresário da banda, Kelly Curtis.

Vedder causou uma forte impressão naqueles que encontraram com ele. Debi Lipitz, uma promotora regional da Epic Records, revelou seu primeiro encontro com o cantor, durante uma visita à agora extinta rádio de rock, KXRX.

"Eddie tinha retornado de uma viagem escalando montanhas e estava em pé, no meio de um círculo de polaróides, sobre o chão. Ele tinha ido ao topo da montanha e queria me mostrar o que ele viu de lá de cima. Então, ele montou um círculo com as fotos e disse: 'Fique aqui [no centro] e dê uma volta. Isto é o que eu vi, olhando para baixo'. Ele montou sua foto de 360 graus com polaróides. Era fantástico."

Jim Rose, criador do Jim Rose Circus Sideshow, conheceu Vedder no Festival Lollapalooza de 1992, no Ketsap County Fairgrounds, onde o Pearl Jam estava tocando.

"Eddie foi o primeiro rock star que eu conheci e eu já encontrei com vários desde então. Passados 10 anos, adivinha quem é o único cara que eu posso telefonar, que me liga de volta em uma semana e nós combinamos de sair? Eddie."

De forma relutante, Vedder se tornou um porta-voz da Generation X e uma legião de jovens de 20 e poucos anos ficaram cativados por seu carisma, seu idealismo corajoso e por suas letras angustiadas e intrigantes. As coisas começaram a acelerar rapidamente, quase sobrecarregando a banda. As vendas do disco foram às alturas e a mídia estava em um constante frenesi. Em 1993, Vedder estava na capa da revista Time.

"Ninguém imaginava que fosse ser tão imenso quanto foi" , disse Curtis, cujo conhecimento do meio musical veio com o trabalho com outra banda de Seattle, o Heart.

"Quando você chega ao ponto em que se vende 10 milhões de discos, seu público é completamente diferente. Nós nos referíamos a eles, como sendo o público 'frat-boy'. Esses caras que ficam bêbados e se envolvem em brigas. Você com certeza prefere ter seus fãs leais lá."

"Eu acho que o fato da banda recuar da exposição quando nós fizemos isso, deu uma certa mística a eles. Porque tudo é de momento, imediato. A atenção do público é curta" , disse Curtis. "Eu acho que a banda preferiria trabalhar desse jeito desde o início: com as coisas sendo construídas lentamente a cada ano, ao invés de começar do topo."

AS CAUSAS DA BANDA

Mas o sucesso fenomenal do Pearl Jam - a banda vendeu 40 milhões de discos, segundo a Epic Records - teve um lado positivo também. Com muito dinheiro vindo da venda de discos, a banda destinou os ganhos para uma variedade de causas, que vão do Home Alive , organização que combate a violência ao Artscorp , um grupo que ajuda crianças menos favorecidas.

John Hoyt, presidente de uma firma que presta serviços de assistência social, a Pyramid Communications, de Seattle, é amigo da banda desde 1992, quando o Seattle Parks Department retirou a permissão para o grupo fazer um show gratuito no Gaswork Park. O grupo posteriormente fez um show gratuito chamado 'Drop in the Park', no Magnuson Park.

"Para a comunidade local, eles têm essencialmente o mesmo impacto que as grandes corporações desta região. Eu não conheço tanto a música deles, como eu conheço o ativismo deles" , disse Hoyt.

No ano passado, em novembro, os dois shows beneficentes no Key Arena, em Seattle, arrecadaram U$500.000 para 18 programas de caridade regionais e nacionais. Em outubro de 2001, o grupo vai tocar novamente com Neil Young no anual Bridge School Benefit, em São Francisco. Em 22 de outubro, a banda vai tocar no Key Arena, como parte da série de concertos do Groundwork 2001, um evento que visa levantar fundos para ajudar o combate à fome mundial.

Apesar do sucesso, o PJ nunca se esquece de seus fãs de Seattle. "Eles constantemente faziam shows surpresa, o que não é tão fácil de fazer quando uma banda se torna grande" , disse Faulkner, diretora de música da KISW. "Eles sempre vão a locais distantes dizendo: 'Nós somos daqui [Seattle] e temos orgulho de sermos daqui e agradecidos pelo apoio.' Eles nunca perderam o contato com o Noroeste."

O Pearl Jam mantém contato com os fãs por meio do fã-clube em www.tenclub.net. Eles atualmente tem mais de 40.000 membros que pagam U$10 por ano para receberem várias coisas, incluindo ingressos para shows e um exclusivo single (de vinil) todo Natal. Há 2 anos, 'Last Kiss' tornou-se o single que ocupou a mais alta posição nas paradas de sucesso em toda a história da banda.

"Nos shows ninguém senta na frente dos membros do fã-clube, não importa quem seja" , disse o organizador do fã-clube, Tim Bierman. "Ben Affleck [ator] queria sentar na primeira fileira quando eles tocaram em Los Angeles, o ano passado. As coisas não funcionam deste jeito."

UM ANO CALMO

Fora os dois concertos beneficentes em outubro, o Pearl Jam está dando um tempo às gravações e turnês. Está sendo um ano muito calmo.

Em fevereiro de 2002, os membros da banda se reunirão para começarem a trabalhar no próximo álbum. Eles terminarão as gravações na primavera ou no começo do verão, em tempo para tentar lançar o disco no verão ou no outono do próximo ano, pela Epic Records.

Depois do próximo álbum pela Epic, a banda passará a considerar outras formas de distribuir sua música, talvez pela Internet.

"Eu acho que eles continuarão a fazer discos e encontrarão formas para terem mais controle sobre a maneira como os discos chegarão aos fãs" , disse o empresário Curtis. "As gravadoras terão cada vez mais um envolvimento menor."

A banda ainda não está pensando sobre sua próxima turnê. "Nós vamos ver como todo mundo se sente" , disse Curtis. Porque nada é exato com esses caras. Eles podem decidir fazer uma turnê e só me avisarem um mês antes".


     
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