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PEARL JAM
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ARTIGO: Man on the Edge, Kerrang - 1993


"Junto ao Nirvana, com os quais eles tiveram uma relação inicial meio tumultuada, o Pearl Jam iniciou a explosão do grunge, quando eles estouraram em Seattle, em 1991. E desde o começo, era óbvio que Vedder era um extraordinário frontman . Um surfista apaixonado que pessoalmente brigou por mais causas humanitárias do que a Madre Teresa. Vedder foi um artista intenso que procurou dar o máximo de si para os fãs da banda. No começo isso era muito positivo, mas quando a popularidade da banda começou a aumentar, ele achou cada vez mais difícil manter o contato com tudo isso.

Como Kurt Cobain, Vedder não fazia negócio com o estrelato do rock. Ele via em seu público, uma plataforma para divulgar algumas de suas causas preciosas e - especialmente- intensificar a consciência de sua banda. A última coisa que ele queria era a adulação e a atenção constante. Ele evitou festas no camarim e vínculos com a mídia, preferindo conversar com fãs ou com pessoas que ele encontrava na rua do que com funcionários das companhias de disco. Mas, eventualmente, a mídia ganhou: como a banda estourou, isso demandou mais e mais dele.

"Eu provavelmente um dia não farei entrevistas, porque eu não quero acabar distorcendo o tópico" , diz Eddie Vedder. "Música é o tópico. Não seria por causa de atitude ou qualquer outra coisa. É simplesmente que, há 15 anos, eu encontrei um meio bonito de me expressar. Música é uma forma das pessoas se aproximarem e curtirem. Está aí e é o que eu faço; então, quando você pensa nisso, em termos dessas revistas... A outra razão para eu não mais fazer entrevistas, é que as pessoas não vão querer saber - por falta de interesse ou seja lá o que for. Eu não quero ser uma estrela: não vale a pena ter fotos tiradas de mim e a minha cara em tudo quanto é lugar. É assustador - eu poderia assustar um monte de gente com a minha cara! Não é sobre rostos. Eu acho, particularmente, que, quanto menos você conhece sobre um músico, melhor. Tudo que você precisa é a música e daí você não terá outras idéias preconcebidas" .

Eddie Vedder vê da seguinte forma: nós vivemos em uma sociedade em que a mídia tem tanto poder, que não se preocupa mais com honestidade, sensibilidade; ao invés de prover entretenimento, com um serviço de informação equilibrado, distorce-se tudo, absolutamente fora da proporção.

Como um americano, o mundo de Vedder já é mais dominado pela mídia do que o nosso. Mais significativamente, ele é o vocalista da mais popular banda de rock do mundo no momento. Isso faz dele, o alvo principal da mídia e ele está começando a detestar isso. E é por esse motivo que essa será a última entrevista que você vai ler.

Desde que o Pearl Jam lançou o "Ten", em 1991, eles vêm sendo questionados e interrogados e escolhidos pela imprensa mundial. Para alguns, o Pearl Jam foi sozinho responsável por salvar o rock. Para outros, Vedder, os guitarristas Stone Gossard e Mike McCready, o baixista Jeff Ament e o baterista Dave Abbruzzese, são somente roqueiros fazendo pose de angustiados.

A atenção interminável tem empurrado a banda e, principalmente Vedder, para a beira. No último ano, no Festival Roskilde, na Dinamarca, Eddie se quebrou. No dia anterior, em um show em Estocolmo, roubaram um caderno com letras de músicas e um jornal dele no camarim, quando ele já estava no limite. Durante o show em Roskilde, ele explodiu ao ver um segurança atacando um fã fazendo stage dive e ele acabou batendo no segurança.

A pressão vem sendo construída há tempo. O Pearl Jam gastou muito tempo na estrada. Eles cancelaram os dois shows em Londres, no começo do ano, para manterem a sanidade. Mesmo que você tinha um ingresso para esses dois shows, você se sentirá orgulhoso ao ouvir "Vs".

"Todo mundo pergunta sobre a pressão excessiva" , diz Vedder "mas eu sinto que eu tenho que proteger a música disso. Eu acredito que isso me afeta pessoalmente, claro. Mas você sabe, eu poderia dizer um monte de nome de pessoas com as quais eu falo sobre essa pressão e como me desviar dela. Eu poderia falar toda noite sobre isso com eles. Mas tudo vem do fato de eu querer deixar tudo aquilo distante da música. É como uma criança; é como manter o bebê fechado em um quarto onde ninguém possa alcançá-lo, porque é uma coisa frágil".

"Vs" - que quase foi chamado 'Five Against One', que é um trecho da faixa 'Animal' - é um disco deliciosamente instável e maravilhosamente insano. Quanto às letras, como "Ten", é uma combinação do político, do espiritual e do pessoal.

"Bem, todas essas coisas reais se acumularam" , diz Vedder, "Esse é o meu jeito de ser. Eu sempre fui desse jeito e sempre serei. Eu acho que você tem que tentar mudar as coisas - apenas um pouco. Eu realmente não tenho poder para fazer muito. Há muito mais que eu adoraria fazer. Eu faço coisas, mas não publicamente: eu não falarei sobre elas".

Essas coisas incluem apoiar o People for the Ethical Treatment of Animals ; o Rock The Vote , durante a recente eleição para presidente nos EUA (Vedder apoiou Clinton); oposição à pornografia e contribuir para a proteção do ambiente. Ele fala sobre o Earth First , uma organização radical que emprega métodos ilegais para tentar salvar o planeta.

"A teoria deles é a da infiltração de um empecilho" , ele explica. "Quando florestas estão sendo cortadas, eles colocam algo para engrossar as árvores, daí quando os serradores vão cortá-las, eles quebram as suas lâminas"!

Em "Vs", Vedder canta sobre coisas tais como, crianças com dificuldade de aprendizagem ('Daughter'), tensão racial ('W.M.A.'), e a terrível estupidez da cultura americana de culto às armas ('Glorifield G').

"Havia um tempo em que se pensava que crianças com dificuldade de aprendizagem eram teimosas e egoístas" , ele diz sobre 'Daughter'. "Apenas recentemente foi conhecido o que é (distúrbios de aprendizagem). 'WMA' significa 'White Male American' (homens brancos americanos). Nós todos somos almas: todo mundo deve ter uma, não importa de que cor elas são".

Considerando-se o envolvimento de Vedder com o movimento Pro Choice (que está tentando impedir que o aborto de torne ilegal em qualquer lugar nos EUA), é só uma questão de tempo, até que ele escreva uma canção sobre isso, também.

"Deveria ser uma escolha da mulher o que ela faz com o corpo dela e como ela planeja o seu futuro" , ele reconhece. "Se ela vai com um cara, por quê ela deve ser atolada pelo problema e ser forçada legalmente a ter esse bebê para o resto de sua vida, somente por causa de uma po**a de um pênis?"

Vedder atualmente está realçando essas questões para um grande público na América. "Ten" vendeu até agora 7 milhões de cópias - mais que o "Nevermind" do Nirvana.

Assim como o também socialmente consciente, Zack de la Rocha, Vedder é o antídoto extremo aos roqueiros cabeças-de-vento do passado recente. Milhões de jovens não querem ícones decadentes nunca mais: eles querem que suas bandas favoritas tenham algo a dizer.

"Nós temos muitos problemas profundos enraizados, nós somente podemos tentar fazer nossa parte" , diz Vedder. "Antes disso tudo, eu costuma achar que eu poderia mudar parte do mundo. Eu nunca esperava estar sob o olho do público mas, mesmo sem essa opção, eu imaginava que eu poderia mudar as coisas. As pessoas não entendem, elas esquecem o quanto é incrível quando você faz alguma coisa para alguém. As pessoa ficam chocadas quando você simplesmente dá algo a eles; eles sempre estão olhando acima dos seus ombros e você não pode culpá-los. Há um monte de pessoas tolas na América que nunca se esforçaram por nada. Não há substância na personalidade delas e elas estão desesperadas atrás de qualidade de vida".

Eddie Vedder cresceu em Illinois, onde a sua família possuía um orfanato. Ele não sabia quem era o seu pai até a adolescência. Ele é evasivo quando se fala sobre o seu passado, embora ele tenha me dito uma vez que sua apreciação pela vida, o ajuda a compreender toda a merda que aconteceu antes na sua vida. Fora isso, ele não entra em muitos detalhes.

"O negócio é criar; e eu faço isso, mas todas essas outras coisas...Eu falarei calmamente a você agora, mas há vezes em que eu não vou querer" , ele diz. "Muitas pessoas falam e onde está o sentido disso?"

Ele tem recebido comentários ridículos de críticos e contemporâneos dele sobre o fato de ser "prostituído" pelo rock corporativo. Recentemente, ele até foi acusado de racista: "Há uma canção que nós tocamos, 'Leash', cujo refrão diz 'Drop the leash, drop the leash, drop the leash, get out of my fucking face'. Nós a tocamos em Washington, DC, e eu recebi uma carta de uma garota dizendo 'Eu amava a sua banda, mas eu não poderia acreditar que vocês cantavam aquela música, era tão racista!' Ela pensou que eu estava cantando 'Japanese, Japanese...'! (Japonês...Japonês!) E é claro que eu queria responder a carta. Isso era loucura! Ela disse 'Eu nunca mais ouvirei a sua banda novamente e eu direi a todos os meus amigos o que você fez'. Ela pensou que eu era capaz desse tipo de sentimento...Mas o que você vai fazer? Mas há tantos mal entendidos e isso acaba acontecendo na vida de qualquer pessoa, principalmente nessa escala".

Depois de dois anos vivendo em uma bolha, Eddie Vedder está aprendendo a arte da auto preservação. Ele falou apenas para três revistas britânicas para promover o lançamento de "Vs". Ele ficou irritado com pelo menos um ataque verbal ao Pearl Jam, vindo de um jornal de música mal informado. "Esses caras que estão escrevendo essas coisas, você nunca vê a cara deles. Eles provavelmente escrevem coisas pesadas apenas para ter uma reação. O vergonhoso é que muitas pessoas são influenciadas pelo o que está escrito e no fim, muitas pessoas hoje em dia lêem e falam sobre música muito mais do que ouvem".

Todos, é claro, devem ter lido sobre a rivalidade entre o Nirvana e o Pearl Jam - que começou quando Kurt Cobain fez alguns comentários inflamados sobre o Pearl Jam e terminou no ano passado quando ele e Vedder dançaram lentamente juntos em público. O fato dos disco 'Vs' e 'In Utero' do Nirvana serem lançados praticamente juntos, aumentou a percepção de como as duas bandas estão se dando bem agora.

"Nas últimas semanas, tem sido a mesma coisa - as pessoas estão falando sobre Nirvana e Pearl Jam. Eu e o Kurt conversamos outro dia, porque você sabe que os nossos discos vão sair ao mesmo tempo e isso poderia ser realmente ruim. Então, depois disso, nós alternaremos; nós vamos realizar os nossos discos com diferença de 6 meses! Contudo, as pessoas podem juntar dinheiro para comprar discos durante esse período".

A fofoca, a especulação, a incompreensão, a violação pessoal, o exagero e a distorção: isso tudo adicionou uma enorme "bolha fervendo" sobre as costas de Eddie Vedder. Ele entrou nesse negócio pelo simples prazer de fazer música e ele está convicto de que é isso que ele vai fazer a partir de agora. Ele não dará mais entrevistas por um bom tempo.

"Você tem que assumir uma postura. Você tem que ser capaz de confiar nas pessoas para poder ser tremendamente honesto. Então, se você ouvir que nenhum de nós da banda vamos mais dar entrevistas, isso será simplesmente porque nós estamos tentando manter um pouco de controle; tentando preservar um pouco a música. "


     
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