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ARTIGO:
Entrevista "O Roqueiro e o Professor", Interview Magazine - 1998 |
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Howard Zinn: Eu me lembro de ter lido que, quando você era mais novo, você tinha um emprego que te possibilitava ler muito. Era da época em que você trabalhava como segurança? Eddie Vedder: Sim. Num expediente de 8 horas, normalmente 4 horas eram silenciosas. Então, eu levava instrumentos de percurssão - assim, eu podia fazer o que eu tinha paixão e ser pago ao mesmo tempo. Howard Zinn: Naquela época, você já ganhava com sua música? Eddie Vedder: Não. Howard Zinn: Mas já escrevia canções? Eddie Vedder: Ah sim. (escrever músicas) É realmente como uma maldição: é algo que você está condenado a fazer (risos). Howard Zinn: Muitas pessoas têm o desejo secreto de fazer algo artístico - música, arte, poesia. E eles sabem que não serão pagos por isso, então, dirigem táxis, fazem carpintaria, trabalham como segurança, garçom, motorista de ônibus. E a maioria deles nunca deixou seus empregos. Eu penso sobre isso, todas as vezes em que vejo alguém com um emprego comum, como quando alguém carrega minhas malas num hotel. Eu penso: 'quais serão seus talentos secretos?' Eddie Vedder: É por isso que nunca há um taxista silencioso. Eu e minha esposa temos uma teoria: (pergunte a um taxista) uma pergunta e aprenda sobre as outras partes do mundo. Howard Zinn: Foi lendo que você passou a se interessar pelo mundo, por aspectos sociais, além da música? Ou foi alguma outra coisa além? Eddie Vedder: Eu acho que, para mim, vem do fato de eu não ter tido nada e saber o quanto isso pode ser assustador; perceber que ninguém está indo te ajudar e que você vai estender a mão e ninguém vai te chamar. Nós éramos jovens trabalhadores e eu me lembro de pensar: "Cara, não tem jeito de sair dessa. Eu não sei como nós vamos conseguir algo mais, se teríamos recurso para seguir em frente. De que tamanho seria o nosso mundo? Ele seria: do apartamento para o ônibus, daí para o emprego e tudo de volta novamente? Quanto da vida nós teríamos chance de experimentar?" Howard Zinn: Então, no seu caso, pensar sobre as pessoas que têm pouco, surgiu do fato de você mesmo ter tido muito pouco? Eddie Vedder: Sim. Eu ainda me lembro do que é sentir isso. Howard Zinn: Eu acho que o pensamento é esse aí: 'lembrar do que é sentir isso'. Há pessoas que têm muito pouco, mas que se tornam bem sucedidas, prósperas, reconhecidas e elas esqueceram - ou preferiram esquecer, porque é mais cômodo - de como eles eram e de como isso é para as pessoas. Meus pais eram pobres; nós viváimos nos bairros pobres de Nova Iorque. Meu pai era garçom e estudou até o 4º ano; minha mãe tinha até a 7ª série e ela era a de maior instrução na família dela! Na verdade, ela era uma mulher muito inteligente e meu pai trabalhava duro para tentar manter a família viva. Percebendo isso tudo, vendo o quanto o meu pai trabalhou duro, a minha mãe cuidando de quatro filhos e, no fim, constatando que eles não tinham nada (material) para mostrar, nada...Foi a partir daí e, para o resto da minha vida, que eu nunca acreditei em ninguém que diz - alguns dos meus alunos diriam isso para mim, e eles vêm de família ricas - 'Oh, meu pai alcançou tudo isso; nesse país se você trabalha duro, você atinge o que quer'. A implicação acaba sendo: 'se você não alcança algo, você não trabalhou duro'. Eu sei que isso não é verdade. Eddie Vedder: Eu acho que isso tudo, como compositor, acaba me levando a lidar com certos temas. Eu acredito que eu obtive um material vasto a partir de toda essa experiência de vida. Howard Zinn: Você começou a escrever cedo, não é? Eddie Vedder: Muito cedo, sim (pausa). Eu não... veja, eu não... eu não... Olha, veja de que forma o rock e as cancões são bons para mim: eu tenho a chance de formular um pensamento (risos) e não há ninguém checando a pontuação. Howard Zinn: O que é o melhor. Eddie Vedder: Bem, compor é um bom meio, sim. Howard Zinn: Eu falo isso baseado no meio acadêmico. Você vê pessoas que são meticulosas com a gramática e a pontuação e, você dorme na segunda frase. Não há vida. Eu sempre quero ver composições que tenham vida. Eu não me importo se os alunos estão escrevendo direito. O importante é o sentimento. Eu acho que no rock, você não tem que prestar atenção naquelas regras. Você pode fazer o que quiser. Eram sempre canções que você escrevia? Eddie Vedder: Sim, eu precisava de algo que no final desse um volume escrito completo. Com as guitarras e a bateria por trás, isso tudo se destaca. Com melodia e ritmo, aquelas simples frases ganham um pouco mais de vida. Howard Zinn: É uma mistura, algo coletivo. Não é apenas você como um indivíduo fazendo algo bom. É você, mais essa pessoa, mais aquela outra e, então, forma-se um time. O que é algo que eu descobri sozinho, depois de anos trabalhando em inúmeros projetos individuais, escrevendo livros e artigos. Então, eu escrevi uma peça de teatro nos anos 70, sobre a anarquista-feminista do começo do século XX, Emma Goldman. Se você tiver oportunidade, leia a autobiografia dela, 'Living My Life'; porque isso é o que ela era. Ela dizia: 'Eu vivo minha vida do jeito que eu quero vivê-la. Eu não vou deixar os governantes me dizerem, a igreja me dizer, meus chefes me dizerem. Eu não vou deixar ninguém dizer como eu vou viver a minha vida - minha vida pessoal, minha vida sexual, minha vida política.' É claro, que ela foi mandada para a cadeia. Quando eu escrevi essa peça sobre ela, o melhor momento foi quando eu dei as minhas palavras, o roteiro para o diretor, que, escalou os atores, escolheu o cenógrafo, selecionou a trilha, etc. Daí, quando eu fui à noite de estréia, e olhei para tudo sobre o palco, eu disse: 'Uau!' O que você está descrevendo, soa como aquela experiência. A canção não é apenas as suas palavras, há todos os outros elementos. Eu nunca havia testemunhado uma experiência como a que eu tive hoje em seu show em Los Angeles. O que eu achei interessante, foi o quanto todo a atmosfera contribuiu para o que vocês estavam fazendo no palco. Tudo criou um clima fantástico. E é excitante ver como o público está envolvido com vocês; eles se sentem como parte do que está acontecendo no palco. Eddie Vedder: É excitante ver 20.000 pessoas concordando sobre algo. Que é o que ocorreu lá. Howard Zinn: Quando você começou a compor, você achou que escreveria coisas que tinham alguma espécie de mensagem social? Eddie Vedder: Eu tinha, mas era por causa da música que eu ouvia naquele período. A música que me afetou sempre tinha algum tipo de história ou substância. Não era só sobre motos ou rock and roll. Howard Zinn: Que música você ouvia? Eddie Vedder: Esse cara chamado Pete Townshend. Howard Zinn: Oh, Pete Townshend. Eu já ouvi sobre ele. Eddie Vedder: Ele era mais teatral. Algumas das canções contavam histórias ou descreviam personagens. Um dos meus melhores períodos como compositor, ou em que eu mais aprimorei a minha forma de compor, foi no início dos anos 80, quando a maior parte das músicas mainstream não comunicavam nada. Era algo bem tolo. Eu sabia que eu podia fazer algo melhor do que aquilo. Eu estava compondo para mim mesmo, para me manter inspirado, não necessariamente inspirado sobre música, mas apenas pela vida. Eu queria ouvir coisas, as quais eu não podia sair e adquirí-las à época. Howard Zinn: Você acha que os outros integrantes do Pearl Jam estão em concordância com as canções que você escreve? Há desentendimentos sobre o conteúdo daquilo que você faz ou do teor de suas canções? Eddie Vedder: Não, nunca ocorreu isto de jeito nenhum. O que eu costumo achar é que eu sou tão exigente comigo mesmo que, quando eu levo uma canção a eles, ela é no mínimo decente. Eu respeito todos na banda, então, quando eles selecionam algo que eu fiz, isto significa muito para mim. Às vezes eles dizem: "Uau, eu estava ouvindo aquela música e imaginei o que você está querendo dizer nela" ou " eu vejo um duplo sentido nela". Eu considero tudo como um grande complemento. E eles também compõem e trazem 'para a mesa' suas próprias questões sociais. Um dos nossos guitarristas tem ido à reservas indígenas e ajudou a construir habitações com os nativos americanos e com outros voluntários. Em Seattle, nós levantamos U$ 500.000 com dois shows e o dinheiro foi empregado na compra de livros para escolas - algo que eu acredito que o governo deveria se preocupar, e não bandas de rock. E há todo o dinheiro que nós pagamos com impostos. Que é de onde minha frustração aumenta. Todo ano nós damos uma enorme quantia de dinheiro (para o governo); não costuma haver evasão e, ainda assim, não há dinheiro suficiente para coisas como livros escolares. Minha esposa diz que quando nós preenchemos os dados para pagar os impostos, deveria haver uma lista no topo , em que todo mundo escolheria três coisas em que elas gostariam de ver o dinheiro sendo aplicado. Howard Zinn: Eu acho que a maioria das pessoas diria: "Vamos dar mais dinheiro para coisas importantes como saúde, educação, crianças - tudo mais - e não para armamentos". Eu acho que seria uma ótima idéia. Eddie Vedder: Aí está uma questão maior. Próximo do final de seu livro "A People's History of the United States", você questiona Martin Fitzwater (secretário de imprensa da Casa Branca 1982-1992) sobre o fato de que quando indivíduos pagam mais que U$ 4000 para ir a um jantar Republicano, eles têm acesso. E quando você perguntou sobre as pessoas que não têm muito dinheiro, ele diz que elas precisam obter acesso de outras formas. Isto é frustrante. Como ter acesso? Como manter as pessoas motivadas e próximas? Howard Zinn: É difícil manter o forte interesse em política. Nós éramos capazes nos anos 60, onde havia questões que tinham uma motivação inerente, que batia na consciência das pessoas, que eles acompanhariam por um longo tempo. Segregação racial no final do anos 50 e início dos 60, era uma delas. A guerra do Vietnã foi outra. Eu acho que o que está ocorrendo agora é que nós temos que encontrar a questão que excitará as pessoas o suficiente para construir um grande movimento nacional, uma questão central, dramática, que agarrasse as pessoas e as mantivesse focadas por um tempo. Você sabe pelos concertos beneficentes que vocês fazem, que há pessoas trabalhando no Tibete, pessoas trabalhando no Choice, pessoas trabalhando em prover alimentos e medicamentos. Há um número enorme de pessoas neste país que não sabem que estão fazendo coisas boas. É importante saber estas coisas porque, caso contrário, você se sente desencorajado - você olha a TV ou os jornais e não vê nada além do que os senadores e congressistas ou secretários de estado estão dizendo. Televisão e jornais não dizem a você o que essas outras pessoas estão fazendo. Eu acho que a música pode assumir esse tipo de papel. Eu acredito que há políticos acima disso, mas também há corruptos e ruins e, então, debaixo dessa superfície, há as pessoas, há cultura, há música, há escritores, há pintores, há poetas. Há pessoas que conectam as coisas e, pouco a pouco, têm um efeito. As coisas estão fervendo abaixo da superfície. Eu considero a música como sendo parte disso tudo. Eddie Vedder: Algum dia eu espero cursar Ciência Política, de verdade. Até lá, eu estou lendo seu trabalho. Howard Zinn: Eu acho que você aprenderia mais lendo e falando com as pessoas do que assistindo aulas. Pessoas que não fizeram cursos de graduação possuem uma visão romântica do que é cursar uma faculdade. Essas pessoas pensam: "Se eu tivesse feito uma faculdade, eu seria mais inteligente." Eddie Vedder: Bom, então eu posso esquecer esta idéia? Howard Zinn: Sim, com certeza. Eddie Vedder: Eu estou saindo desta conversa me sentindo mais...elevado. Howard Zinn: Para mim, artistas sempre têm sido maravilhosos. O que seria de nós sem eles? Mas, sempre que eu me aproximo de um artista que é algo além do que um artista; que não apenas faz arte, mas também pensa sobre o mundo a sua volta; para mim é como uma benção. Quando eu era adolescente, ouvindo Pete Seeger, eu pensava: 'ele não é somente um cantor de folk; ele conhece, ele se importa com o que está acontecendo no mundo'. E isto me fez sentir por ele algo que eu não sentia por outros cantores de folk. Eddie Vedder: Ou mesmo Sinatra... Isto aqui foi ótimo. Eu apreciei cada momento com você. E foi realmente ótimo que você veio nos ver tocar. Na verdade, isto me fez sentir um pouco desconfortável. Howard Zinn: Bem, ir a um concerto do Pearl Jam foi uma experiência que eu nunca teria tido na minha vida, se não tivesse sido por você. Só o fato de ter presenciado todo este evento e ter sido afetado por ele, foi algo que eu nunca teria imaginado.
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