03/06/2003, Terça * Irvine, CA - Verizon Wireless Amphitheatre (abertura: Idlewild)
set: Can't Keep , Spin The Black Circle, Save You, Grievance, Cropduster, Nothing As it Seems, Even Flow, You Are, 1/2 Full, Given To Fly, Daughter/With My Own Two Hands (do Ben Harper), Lukin, Corduroy, Untitled, MFC, Black, Love Boat Captain, Porch
enc 1: I Am A Patriot (cover do Stevie Van Zandt), Do The Evolution, Small Town, State Of Love And Trust, Crazy Mary (cover da Victoria Williams), Alive
enc 2: Know Your Rights (cover do The Clash), Bu$hleaguer, Fortunate Son (cover do Creedence Clearwater Revival), Rockin' In The Free World (cover do Neil Young com Jack Irons na bateria)
Kurt Cobain, mártir da era "tudo não presta", famosamente registrou em seu diário, que gostaria que sua banda fosse para sempre liberada da associação com o Pearl Jam. Cobain, que privadamente desgastou-se sob o sistema do punk que ele publicamente defendeu, não teria que se preocupar com isso hoje, se ainda estivesse vivo. As comparações seriam ainda mais sem sentido do que eram antes.
O Pearl Jam tem sempre sido muito expansivo, tanto na sonoridade como nas letras, para ficar estacionado na prisão do punk. Isso tem sido uma habilidade. Por outro lado, uma das desvantagens do PJ têm sido sua autoconsciência sobre a indiferença que diminuiu a banda no começo da carreira, por não serem punks o suficiente. Essa autoconsciência (graças ao Kurt?) algumas vezes levou a banda a negar seus arrimos - grandes canções para espaços grandes, sejam eles um anfiteatro ou um buraco na sua alma - de modo a agradar os experts e as experts do mundo da música alternativa. Mas mesmo no meio dos anos 90, quando essa droga tinha quase sentido, o PJ fez o melhor quando ultrapassou barreiras, mais do que reproduzindo, indo atrás de credibilidade, como fizeram nas ocasionais inclinações punk no "Vs" ou "Vitalogy".
Felizmente, o PJ, que há tempos já não carrega o peso das esperanças e expectativas de uma geração, faz muito pouca reprodução e muito mais bons rocks. Depois de uma viagem torturante, uma auto-análise pela última metade da década passada - durante a qual eles brigaram com todo mundo, da MTV à Ticketmaster e a Rolling Stone e, especialmente, com si mesmos - o PJ parece aliviado de ter sossegado e ter encontrado seu caminho de volta como a melhor (e única?) banda de rock'n'roll da América. Isso, é claro, não é novidade para a base de fãs, diminuída e leal - os geeks fazendo downloads e colecionando bootlegs e os "soldados" sensitivos que continuaram firmes, mesmo quando a banda não lançou um "Ten" ou um "Vs"; os únicos que ficaram com o PJ quando eles desapareceram das rádios, da MTV e das paradas da Billboard, mesmo quando Staind/Puddle/Creed, usando o "Ten" como o livro de música, satisfez os apetites com fraca imitação.
A energia feroz e o bom coração do PJ sempre foram admiráveis, sem falar na habilidade de Eddie Vedder de escrever fortemente de um ponto de vista feminino, mas tão catártico quanto eles poderiam ser, alguém tinha que perguntar quando eles escreveriam uma canção de rock verdadeiramente boa ou um álbum poderoso, que os colocasse entre os ótimos, e não apenas entre os melhores de venda. O ex-baterista do Red Hot Chili Peppers, Jack Irons, se juntou para o folk, com inclinação para a World Music, "No Code", e o PJ começou a encontrar seu groove , enquanto as massas se moveram para o Korn/Biscuit. Aquele álbum e o "Yield", com um punhado de canções negligenciadas e pouco expostas, como "MFC" ou "In Hiding", deram uma dica do que a banda podia fazer tendo o baterista certo.
Matt Cameron, antes do Soundgarden, entrou no lugar do enfermo Irons, e, em 2000, a banda suavizou, se abriu e fez uma obra-prima, o criticamente não-aclamado "Binaural", uma coleção coesiva e melancólica de canções sobre amadurecer, se separar e morrer. Claro, se comparado ao passado de [álbuns] mega-platina, "Binaural" foi um fracasso.
Ainda menos apreciado, vem sendo o mais recente álbum da banda, "Riot Act", um álbum claramente de rock para adultos que se sentem debilitados pela ganância e a decadência da nossa atual cultura de cowboy. Entre suas várias preciosidades, está a maravilhosa "Love Boat Captain", claramente a canção mais corajosa da banda, e, possivelmente, a melhor do rock/pop do ano. Delicada, melancólica, romântica e viva, a canção está presa ao impassível desejo de deixar o amor reinar. É também o tipo de canção que o objetivo Vedder nasceu para cantar. Sem surpresa, a canção e o álbum são grandes na Europa, onde o "pânico" homossexual não é o incômodo dos políticos e da cultura.
Como seus ídolos, Pete Townshend e Neil Young, Eddie Vedder tem sido um investigador à procura da verdade e do resgate do rock'n'roll. Com a redução da amplitude da banda, mas com seguidores ainda de tamanho considerável, seguindo mais e mais, levando à condição de devoção como uma congregação - seguindo a banda de show em show, registrando cada mudança de setlist - Vedder pode assumir o papel de um bom reverendo, que vem sendo desempenhado (e se exaurindo) por pregadores como Bono e Springsteen. A banda, por seu lado, está "servindo" uma turnê renovadora com inflamáveis 2 horas e meia de rock & roll.
Não se preocupe sobre ser intimidado com palavras. Se o show de terça à noite, em Irvine (Los Angeles), for alguma indicação, PJ (chamado assim por causa de Phil Jackson, Vedder atiçou o técnico do Los Angeles Lakers, que estava sentado na terceira fileira, como se ele estivesse vendo Michael Jordan pela primeira vez), o método é mais Socrático do que dogmático, disposto a deixar a música fazer as conversões. [ NOTA: Ed contou no show - talvez brincando com o técnico - que quando eles estavam pensando sobre que nome dar à banda, queriam que as inicias tivessem um sentido e decidiram por Pearl Jam por causa do técnico Phil Jackson. Phil foi técnico do Chicago Bulls na sua melhor fase e Vedder é torcedor do Bulls.]
Vedder parou com pouca frequência as 2h30min de valiosa música, na maioria das vezes, para fazer piadas com o público ("Nós nos sentimos como se estivéssemos dando a luz a gêmeos", ele disse sobre a segunda noite em Irvine, "e vocês pareciam ser o feio, mas vocês se saíram muito bem") ou para fazer uma digna declaração pública contra a desregulamentação do FCC [órgão que alterou as regras da mídia norte-americana, facilitando o monopólio nos meios de comunicação], sobre votar e "ter filhos".
Não, música não é um deus vingativo, e a vibração do show foi de uma compaixão generosa, mesmo nas canções mais punitivas da banda. O momento mais comovente veio quando Jack Irons sentou na bateria para um extensa versão de "Rockin' in the Free World". Vendo seu amigo enfermo tendo um momento bom, Vedder foi pego pela emoção (e também, talvez, pelo vinho e cigarros) e começou a chorar. Suas costas estavam viradas para o público, então as lágrimas não foram para a arena. Como tudo o que o PJ vem fazendo nestes dias, eles o fizeram por amor.
Se é que o PJ evoluiu como uma banda completamente não-cool, impassível, anti-punk, eles ainda mantém uma tendência e uma integridade punk. Além disso, o concerto de terça foi um exemplo do que acontece quando uma banda como o PJ segue sua alegria; um lembrete do potencial ainda vasto do rock'n'roll para erguer as paixões - ira, tristeza, alegria, sexo e, principalmente, a preocupação atual de Vedder, o amor. Se Kurt Cobain estivesse vivo e no público, grandes chances de que ele estaria dançando.