"Há dois Eddie Vedder. Um é quieto, tímido, quase inaudível quando fala. Amável e amado também. O outro, é torturado, amargo, um homem capaz de apontar as injustiças e agitar uma guerra em seu próprio território, em seu interior. Em um dia de primavera, quente e ventilada em San Rafael, Califórnia, é fácil ver qual Eddie Vedder está jogando basquete fora do The Site, o estúdio de gravação onde o Pearl Jam está terminando seu segundo álbum. É o torturado Eddie, o único com um sulco profundo no meio da testa.
"Sua vez", diz Jeff Ament, baixista da banda. Ele passa a bola para Vedder, que dá um longo pulo. Ela entra na cesta e rola pra longe. Quando Ament pega a bola de volta, Vedder já desapareceu para dentro do estúdio. Sua cabeça está em uma nova canção, "Rearviewmirror". Este é o último dia de gravação no The Site, e o destino dessa música está em balanço. É uma canção sobre suicídio...mas é muito surpreendente.
Em fevereiro, a escolha do estúdio parecia perfeita, quando o grupo decidiu gravar o novo álbum lá. Esse estúdio idílico, cercado por montanhas em San Francisco, oferecia privacidade e foco. Keith Richards gravou lá; sua nota de agradecimento está pendurada na parede da sala de estar. Este é um país bonito, onde as pessoas olham o horizonte verde e dizem coisas como "George Lucas possui toda aquela área à esquerda". Esse é o lugar onde o Pearl Jam está encarando o desafio do sucessor de Ten, um dos mais bens sucedidos álbuns de estréia da história do rock. Havia só um problema.
"Eu odeio esta porra de lugar", diz Vedder, em pé numa sala azul e fresca, onde ele está indo cantar. "Eu tenho tido um tempo difícil". Ele coloca as folhas com as letras num pedestal entre duas guitarras verdes. "Como fazer um disco de rock aqui? Talvez os roqueiros mais velhos, talvez eles amavam isto aqui. Talvez eles precisavam de conforto e de relaxamento. Talvez eles precisavam fazer música para o jantar."
Frustrado, Vedder mexe a cabeça. Ele estica sua camiseta preta, desconfortável em sua pele. Um longo tempo passa. Finalmente o produtor Brendan O'Brien fala pelo interfone.
"Pronto pra começar?"
"Claro", diz Vedder calmamente, passando a atenção para o seu vocal. Ele coloca os fones, e por um longo tempo, o único som no estúdio é o dos seus pés batendo.
"Took a drive today", ele canta. "Time to emancipate/I guess it was the beatings/Made me wise...". Ele coloca uma mão trêmula sobre sua cabeça. "But I'm not about to give thanks or apologize". Agora, ouvindo cuidadosamente, seu peso se distribui de pé a pé. Ele faz um grunhido e cospe no chão.
"Divided by fear ...". Mais intenso agora. "Forced to endure/What I could not forgive..." Ele está berrando agora, os olhos fechados. "Saw things..." A sala está preenchida com sua ira. "Clearer... once you were in my..." A oito pés de distância, um monte de tambores encostado na parede começa a se mexer. "Rearviewmirror!"
Em outra parte do prédio, Ament, o artista da banda, prepara para a reunião com o grupo, uma nova capa para o álbum. Por meses, as regras eram "Não falar sobre isto". Apenas fazer o disco. Esquecer as pressões do outro lado da montanha. Mas agora, as decisões devem ser tomadas e a banda lentamente vai à cozinha e observa as idéia de Ament.
"Eu tenho pensado em janelas", diz Ament, nervoso, passando suas idéias de arte para os outros membros. O estilo preciso da habilidade de Ament, adorna as camisetas do grupo e as capas das gravações. Sobre uma mesa próxima a eles, há uma complexa coleção de fotos e desenhos.
"Legal", diz Vedder suavemente, recém chegado do estúdio e ainda tomado pelo vocal emocionado.
Stone Gossard e Mike McCready, guitarristas da banda, estudam as idéias com crescente entusiasmo. Apoiado, Ament continua. Ele gosta da idéia de contradição. Imagens conflitantes. Os cinco membros discutem o conceito até firmá-lo. Há a calmaria seguida de uma idéia construtiva.
"Então, nós estávamos falando sobre ”Daughter" como o primeiro single?" pergunta casualmente o baterista Dave Abbruzzese.
De repente, todo o ar deixa a sala. Os outros quatro membros reagem contra Abbruzzese. Que single? Uma reunião de cada vez! O que você quer dizer com single? Abbruzzese se encolhe. Talvez ainda seja cedo para mencionar o imencionável. Logo, o assunto retorna para a capa do álbum. Abbruzzese sugere adicionar na foto uma janela batida e fechada, ao estilo dos apartamentos de Nova Iorque. A idéia foi aceita instantaneamente e o encontro termina com um exuberante registro. A banda some para jogar softball enquanto Brendan O' Brien termina a mixagem de "Rearviewmirror".
Abbruzzese fica pra trás, colocando uma munheca (ele sofre de Síndrome do Túnel de Carpo, que causa enformigamento em três de seus dedos). "Para mim, quando eu era mais jovem e ouvia sobre uma banda vendendo milhões de discos, eu imaginava que a banda iria ficar junta e aproveitar tudo por um minuto", ele diz, com um típico sorriso aberto do Leste do Texas. "E deixar rolar - Uau, eu não posso acreditar. Mas não acontece deste jeito (nesta banda). Eu, eu deixo rolar. Eu aproveito sozinho". Para Abbruzzese, que é co-autor da faixa inicial "Go", é duro às vezes, ver como os companheiros de banda lidam com o sucesso. "Há muita intensidade sobre as decisões", ele diz animado. "E eu acho isto ótimo. Mas, de vez em quando, eu gostaria de ver todos deixarem as coisas acontecerem. Fazer uma decisão ruim!". Ele olha para a mesma vegetação da qual Vedder tinha reclamado antes. "Olhe para este lugar! É o paraíso."
Sentado em uma cafeteria no centro de Seattle, algumas semanas depois, Stone Gossard analisa a natureza inflamável de sua banda. "Eu acho que nós estamos bem", ele diz no ritmo rápido de um atleta. "Eu acho que nós fizemos um ótimo disco. Ninguém vai comprar Limusines e pensar que é a coisa mais maravilhosa da Terra. Há um equilíbrio natural na banda, onde nós precisamos uns dos outros. Todos vêem as coisas de seus próprios ângulos, e todos estes ângulos são os arquétipos das coisas que você precisa para se proteger. É isto que faz uma banda para mim."
E ele tem escutado as críticas ao sucesso do Pearl Jam. "Se alguém quiser dizer 'Vocês caras costumavam ser a minha banda predileta, mas agora vocês são muito grandes' - para mim o problema com se tornar muito grande não é, a princípio, se tornar muito grande e de uma hora para outra parar de fazer boa música", diz Gossard. "O problema é que, quando você se torna grande, você pára de fazer as coisas que você fazia antes. Se tornar grande, não significa que você não pode voltar para o porão e escrever uma canção boa. Eu acho que as pessoas são capazes de serem muito maiores". Ele ri. "Muitas pessoas são capazes de se tornarem grandes por aí, que simplesmente não dão uma chance para si mesmas."
Num primeiro momento, as canções do novo álbum chegaram como uma explosão. A semana inicial de gravação no The Site, produziu "Rats", "Blood", "Go" e uma longa versão potente da ainda não registrada em discos e favorita ao vivo, "Leash". Daí a banda parou. Vedder desapareceu em San Francisco, freqüentemente dormindo no seu caminhão para preservar seu ânimo em conflito. Numa caminhada longa, ele apanhou heras venenosas. "Ele precisava se concentrar nas suas canções", diz Ament. "Logo nós voltamos para o trilho."
Pearl Jam é a afirmação da banda, uma declaração pessoal da importância da música sobre a idolatria. Mas o peso da popularidade do Pearl Jam caiu de forma mais sólida sobre Vedder, que gastou muito da sua temporada de descanso questionando sobre os efeitos de estar em uma banda bem sucedida, Vedder se envolveu - algo atípico para ele - em uma briga de bar defendendo a banda. (Com uma voz ao estilo Tom Waits, ele oferece um pequeno trecho de uma música que ele escreveu sobre isto: "Gave myself a black eye/To show off just how I was feeling"). Em uma noite, sentado em uma costa deserta, contemplando a vida após a morte de um amigo, guitarrista Stefanie Sargent, do 7 Year Bitch, ele ouviu vozes estranhas vindo dos montes atrás dele. Eles estavam cantando "Black", a sensível canção que, para Vedder, chegou a simbolizar a excessiva comercialização da banda. Ele lutou para que ela não fosse tocada excessivamente; não queria um vídeo para a música. Vedder atravessou o matagal para pedir aos andarilhos que não cantassem a canção. Meses depois, ele ainda lembra de como eles encararam com estranheza e preocupação, o autor da canção cheio de angústia.
"Eu estava atravessando um período difícil", diz Vedder, agora com um sorriso.
Mas como Ament diz, o esforço é tudo. "O empurra e puxa", ele diz, "é o que faz a nossa banda".
Vamos tocar "Black", diz Gossard.
É período de ensaio em Seattle, junho de 1993. Mais tarde no verão, o Pearl Jam fará uma pequena turnê "divertida" pela Europa, abrindo shows para Neil Young e U2, e a banda alugou o Teatro Moore, no centro da cidade, para praticar. Meio sério, Gossard pede para que as luzes do palco do teatro vazio fossem escurecidas. (Elas estão). Ele começa tocando as notas simples que abrem essa canção angustiante para um amor passado. Então, mão nos bolsos, Vedder calmamente insere a letra. Ele dá o máximo de si, de forma arrebatadora, para os vários assentos vazios. Quando terminou, havia um murmúrio no ar. A banda está evidentemente energizada.
Logo em seguida, o Pearl Jam já está indo para um novo riff de Gossard. Abbruzese tenta algumas batidas diferentes, acompanhando Ament. Daí McCready adiciona um solo potente. Como o próprio McCready, sua forma de tocar é expressivamente marcada por explosões repentinas. Agora, Vedder se junta tentando selecionar letras ("When it comes to modern times/You're standing in line"). Sua onipresente mala de tecido amarelo; a única cheia de jornais, letras de músicas, máscaras e fitas K7, está aberta e espalhada pelo palco. Ele seleciona frases e pensamentos, enquanto a banda brilha atrás dele. Bem antes, eles já tinham versões afiadas de duas músicas novas.
No coração do Pearl Jam está à relação entre Vedder e Gossard. "Eu nos considero como pessoas muito diferentes", diz Gossard, cujo humor afiado é bem distinto da ironia implacável de Vedder. "Quase polarizado em um monte de vezes. Eu quero dizer, indique qualquer problema, e nós tomamos caminhos opostos sobre ele. Nós damos um ao outro, fins totalmente diferentes do spectrum, de forma que nós sempre podemos de alguma forma encontrar o meio. Meu objetivo, o que eu realmente quero atingir, é não precisar dele. Porque ele é necessário para muitas pessoas que realmente não o entendem".
Mais tarde, Vedder toma uma cerveja num bar próximo, o Nightlite, e relaxa do ensaio. Ele reflete sobre cantar "Black" pela primeira vez em meses. "Há certas canções que vêm da emoção", ele diz. "Não tem nada a ver com melodia ou compasso ou mesmo palavras; ela tem a ver com a emoção por trás da música. Você não pode colocar 50%. Você tem que cantá-las de um sentimento. Como "Alive" e "Jeremy" nestes dias - e "Black". Estas canções, elas me rasgam".
Ament senta-se perto dele. Os dois não têm estado juntos socialmente, desde o Festival Lollapalooza 92. Eles compartilham a fácil camaradagem de amantes da música. "Minha relação com a banda", diz Vedder, "começou com um caso de amor ao telefone com Jeff". Logo, os dois músicos estão relembrando o início da história do Pearl Jam, os tumultuados dias de somente dois anos e meio atrás.
Tudo começou com uma despretensiosa fita demo denominada STONE GOSSARD DEMOS 91.
As revistas de "deuses da guitarra" descobriram somente recentemente que, a maioria das canções, começou com um som de guitarra de Gossard. Uma das suas primeiras favoritas, era uma canção chamada "Dollar Short", uma faixa inacabada que ele tinha começado a trabalhar quando ele e o baixista Ament ainda estavam no Mother Love Bone. Love Bone foi a promissora banda de hard rock de Seattle, que ambos formaram após a separação do grupo anterior deles, os pioneiros do grunge - o Green River. Quando o cantor/compositor do Love Bone, Andrew Wood, morreu em 1990 de uma trágica overdose de heroína, Ament - nascido em Montana e filho de um barbeiro - tomou outro rumo, tocando pela cidade com um grupo chamado War Babies e retornando ao seu outro amor, as artes gráficas. Gossard - nascido em Seattle, cujo pai é um advogado - quase não largou a sua guitarra, tocando constantemente, distanciando-se da atmosfera viajante do Love Bone e caminhando para algo mais consistente. Parte da nova "planta" é "Dollar Short".
Futuramente, Gossard chamou McCready, um explosivo guitarrista solo que estava tão frustrado pela separação de sua própria banda de Seattle, Shadow, que ele começou a se tornar um Republicano - literalmente. Ele cortou o cabelo, foi trabalhar numa locadora e estava lendo um livro do conservador Barry Goldwater. "Eu estava me tornando um sólido conservador", diz McCready, "porque eu estava muito deprimido". Gossard viu ele como mais uma nova arma secreta para a banda que ele queria formar. "Não importa o que você está tocando", diz Gossard, "Cready vem e acende o fusível".
Como o som de Seattle começou a crescer - Nirvana estava entrando para um grande selo, a Sub Pop Records estava florescendo - Gossard e McCready se juntaram no porão da casa dos pais de Gossard. Aquele porão já tinha sido "a estufa musical" para o Green River e o Mother Love Bone. Quando Ament se juntou às jams de Gossard e Mccready, a inspiração bateu novamente. "Eu sabia que nós tínhamos uma banda", disse McCready, "quando nós começamos a tocar a canção "Dollar Short".
Dave Krusen juntou-se à banda mais tarde, tocando no Ten, mas logo deixou a banda para cuidar de problemas pessoais. Ele foi substituído por Abbruzzese, que estava tocando em uma banda funk e era um dos apresentadores do programa de rádio "Music We Like", em Houston. Num primeiro momento, Abbruzzese ficou reticente em tocar rock todo tempo; depois de dois shows, ele tatuou em seu ombro um dos símbolos da banda feito por Ament.
Hoje, ouvir as demos originais de Gossard 91, é como ouvir Ten sem os vocais - poderoso mas incompleto. A peça que faltava para completar estava em San Diego. Originalmente de Evanston, Illinois, Vedder - melhor conhecido na cena musical de San Diego, como "o cara que nunca dorme" - tinha levado a ética de trabalho do Meio-Oeste para a ensolarada comunidade costeira. Trabalhando rápido em uma empresa de petróleo para financiar sua crescente carreira como cantor/compositor, Vedder tinha amizade com Jack Irons, originalmente no Red Hot Chili Peppers. Irons passou pra frente a fita de Gossard.
A fita demo de Seattle continha 5 músicas instrumentais, lembra Vedder, mas havia algo em uma canção, a única com uma ótima construção, que estava acionando as coisas que Vedder vinha mantendo contidas. Tudo veio à mente, em uma manhã com neblina, enquanto ele estava surfando. Naquela manhã, "Dollar Short" se tornou uma canção chamada "Alive".
Vedder correu de volta para o apartamento de sua namorada há muito tempo, Beth Liebling, em Mission Beach.
Compondo com papéis Post-it amarelos do seu local de trabalho, Vedder gravou a si mesmo, cantando 3 das músicas instrumentais. Juntas, as canções contavam uma história, como Vedder relembra hoje: "Baseadas em coisas que aconteceram e algumas que eu imaginei". A mini-opera foi cuidadosamente projetada por Vedder, os gráficos xerocados no serviço e a embalagem intitulada MAMASAN.
Sentado em seu apartamento em Seattle, Ament ouviu 3 vezes a fita e pegou o telefone. "Stone", ele disse, "é melhor você vir aqui".
Quando Vedder chegou, em Seattle, ele já tinha escrito "Black". Tudo o que ele requisitou em sua prévia longa conversa ao telefone com Ament, era não perder tempo. Ele queria chegar ao aeroporto e ir direto à sala de ensaio - e fazer música. E foi o que aconteceu. A primeira canção que eles tocaram juntos foi "Alive'
Em uma semana eles estavam funcionando como uma banda completa. E a comporta criativa de Vedder estava bem aberta. A maioria das canções que ele escreveu, de "Why Go" a "Oceans" eram histórias reais de pessoas que ele conhecia. Algumas delas continham enigmas, mensagens particulares para ele mesmo ou para amigos. Embora as letras impressas no encarte de "Ten" são somente parciais, é difícil refutar a dor que ele passa em trechos como "daddy didn't give attention/To the fact that mommy didn't care".
"Eu não sei de onde vieram todas essas canções", diz Ament. "Eu sei um pouco sobre a infância dele. Eu sei que ele amava 'Quadrophenia' (The Who)...Eu acredito que não sei muitos detalhes".
"Alive" deu o tom a tudo que se seguiu. A primeira canção de "Ten", também foi a primeira a chamar a atenção para a banda. Ficou clara a revelação criativa de Vedder, e o vídeo inicial da banda celebrou a catártica performance ao vivo da canção. Numa revisão antiga do Los Angeles Times, o jornalista Chris William comparou a canção à 'My Generation" do The Who. "Alive" é o lamento fortalecedor da Geração X; mas hoje à noite, sentado no Nightlite, Vedder revela o verdadeiro significado da canção.
"Todo mundo escreve sobre ela como sendo uma declaração de vida - eu fico lisonjeado sobre isto", ele diz com um sorriso deplorável. "É uma ótima interpretação. Mas 'Alive' é tortura. É por isto que é foda para mim. Porque talvez eu deveria aprender a cantar de outra forma. Seria mais fácil. É...muito mais."
Vedder continua: "A história da canção é a de uma mãe que está com um pai e o pai morre. É algo intenso porque o filho se parece com o pai. O filho cresce para ser o pai; a pessoa que ela perdeu. Seu pai morto; e agora essa confusão; sua mãe, seu amor, como ele a ama? Como ela o ama? A mãe, embora tenha se casado com outra pessoa, não há ninguém que ela ame mais do que o pai dele. Você sabe como é, o primeiro amor e coisas desse tipo. E o cara morre. Como tê-lo de volta? Pelo filho. Ele se parece exatamente com ele. É estranho. Então, ela o quer. O filho obviamente está aí para tudo isso. Ele não sabe que porra está acontecendo. Ele ainda está lidando com as coisas; ele ainda está crescendo. Ele ainda está lidando com o amor; ele ainda está lidando com a morte do pai. Tudo que ele sabe é 'Eu ainda estou vivo' ('I'm still alive') - estas três palavras que são completamente fora de responsabilidade".
"Suspicious Minds" começa a tocar na jukebox, enquanto Vedder continua: "Agora o segundo verso, 'Oh she walks slowly into a young man's room...I can remember to this very day...the look...the look...'. E eu não digo mais nada. E por eu dizer 'the look...the look' todo mundo pensa que é sobre o rosto dela. Não é sobre o rosto dela. O olhar ('the look') é para o meio das pernas dela. Para onde você vai com aquilo? É de onde você veio."
"Mas eu continuo vivo. Eu sou o amor que se mantém vivo. E a inteira conversação sobre 'You're still alive, she said' (Você ainda está vivo, ela diz). E a dúvida dele 'Do I deserve this? Is that the question' (Eu mereço isso? Essa é a questão). Porque ele está ferrado para sempre! E agora ele não sabe como lidar com isso. Então, o que ele faz; ele se torna um assassino - que é a canção 'Once'. Ele se torna um serial killer. E 'Footsteps' é a canção final da trilogia (foi realizada como Lado B do single 'Jeremy'), que é quando ele é executado. Que é o que acontece. O assassino de Green River...e em San Diego, havia outro assassino de prostitutas. De alguma forma, eu relacionei com aquilo. Eu acho que isso acontece por aí mais do que nós imaginamos. É um jeito moderno de lidar com uma vida ruim".
Então ele sorri e diz: "Eu apenas me sinto feliz por ter me tornado um compositor".
Sentado próximo a Vedder, Ament ouve como um irmão fascinado. Talvez ele esteja lembrando das primeiras impressões sobre Vedder, quando ele chegou em Seattle. Amigos antigos do norte, relatam um Vedder diferente do de hoje; um surfista perdidamente tímido; um cara com muito coração e um pouco de ironia. Um amigo até o chamou de Holy Vedder (Santo Vedder). "Ele era o genuinamente quieto e amável Eddie quando nós o encontramos pela primeira vez", diz Ament. Nos primeiros shows da banda, Vedder era tão retraído, ele raramente levantava os olhos. "E num determinado momento, ele mudou".
Um dos primeiros sinais de mudança, foi no palco de um clube, chamado Harpo's, em Victoria, British Columbia. Era a primeira turnê do Pearl Jam; a primeira aparição longe do educado público de amigos de Seattle. Mas o público canadense estava mais interessado em ficar bêbado. No meio do show, Vedder decidiu desafiar o público sonolento, acordando-os. Arrancando a base redonda de aço do pedestal do microfone, Vedder arremessou-a sobre a cabeça deles, como um disco de frisbee mortal. O disco de aço se chocou com a parede no fundo do bar.
Eles acordaram.
Vedder nunca mais seria o mesmo completamente. Gossard credita à influência do vocalista do Soundgarden, Chris Cornell, que pediu para Vedder cantar no seu álbum tributo ao Andrew Wood, Temple of the Dog. "O próprio Cornell já tinha se transformado de uma forma tão intensa", diz Gossard. "Eddie viu ele como um guia para nos ajudar durante aquele período"
Logo, Vedder desenvolveu um novo hábito no palco. Ele começou a escalar as estruturas do palco ou os bastidores das casas de shows onde a banda se apresentava, caindo nas mãos de um público frequentemente venerável. "Eu acho que a primeira vez em que eu realmente me preocupei, foi quando nós tocamos no Texas", relembra McCready. "Eddie escalou umas vigas, a cerca de 15 metros do chão. Ninguém sabia onde ele estava. E de repente, a gente olha - algum cara apontou uma lanterna na direção dele - e foi como 'Porra!'. Ele estava lá em cima, pendurado numa viga. E eu pensando: 'Este cara é insano, mas eu estou totalmente eletrizado'."
"Tudo isto quase se tornou como um evento circense", acrescenta Ament. "As pessoas não estavam olhando para os olhos dele, quando ele estava fazendo aquilo. Eu acho que elas estavam olhando para um porra louca, você sabe. O cara que era estúpido o bastante para pôr a sua vida em risco. Evel Knievel. Mas, se você olhasse nos olhos dele, cara, havia uma intensidade no que ele estava fazendo. Havia a confiança nele mesmo. Ele estava dizendo, 'Isto aqui não é so rock para mim' "
A banda retornou de uma turnê na Europa e gravaram uma edição emocionante do Unplugged. Havia particularmente um momento no final de "Black" eletrizante, inesquecível. "We belong...together...together", cantou Vedder. Foi simples, um cara sentado num banquinho, partindo seu coração, emocionalmente inundado, lá mesmo, na frente de vocês. Depois do Unplugged, cartas para o fã-clube da banda, o Ten Club, quase dobraram; muitas eram sobre "Black" e elas começavam de uma forma similar: "Eu recentemente pensei em suicídio, mas eu ouvi a sua música..."
O próprio Vedder respondeu muitas das cartas, algumas vezes deixando o escritório da banda numa ruína. Mas havia mais trabalho para ser feito. Quase imediatamente, a banda retornou à Europa para tocar em alguns dos grandes festivais de verão, em frente à 30.000 - 50.000 pessoas. Era a prova de fogo.
"Tudo culminou na Dinamarca", diz Ament. "Os dinamarqueses, eu acho, estavam jogando com a Itália na Copa do Mundo, então a cidade estava uma loucura. O Nirvana estava tocando lá e lidando com a fama deles também. Nós tocamos para 70.000 pessoas. Eddie foi para o público, como ele normalmente faz, e veio de volta; os seguranças não reconheceram ele. Eles começaram a bater nele. Metade da banda foi pra baixo. Isso aconteceu durante "Deep". Eu lembro que nós paramos, e eu realmente estava pronto para ir pra baixo, vendo toda aquela confusão acontecendo...e Eddie e Eric (Johnson, tour manager) estavam totalmente agitados. Mike foi lá pra baixo, Dave foi lá pra baixo".
No show na noite anterior, em Estocolmo, na Suécia, explica Vedder, a banda fez uma apresentação mais longa do que a usual. Um grupo de americanos tinha invadido o camarim e, entre outras coisas, roubou as letras de músicas e os jornais de Vedder. Ele tinha intenção de doá-los no final da turnê, assim como ele fez em uma visita anterior pela Europa (em uma mochila personalizada com considerações sobre cada show, escritas à mão). Mas o furto teve reflexos sobre ele; isso, fez ele sentir como uma quebra de confiança, um mau presságio. Para Vedder, era uma metáfora ao crescente sucesso do Pearl Jam. A banda sobre a qual Ament uma vez escreveu, "Adicione água, veja o Pearl Jam crescer", estava crescendo muito rápido, muito além dos planos de pequena escala para um primeiro álbum de pequena escala. "Isto fez a gente sentir que, tocar nesses shows enormes, não era tão importante quanto nós imaginávamos", diz Ament. "Nós pegamos nossas malas e voltamos na manhã seguinte".
Sentados no Nightlite, Ament e Vedder relembram o contundente término da turnê 1991. A banda viu o seu despretensioso álbum de estréia, Ten, vender milhões. Somente Billy Ray Cyrus manteve-os distantes do nº 1 por um tempo, felizmente deixando ao menos algumas conquistas para o futuro. Pearl Jam tinha sido organizado para crescer lentamente. Ao invés disso, eles foram amarrados no foguete. A banda realizou várias reuniões: "Onde nós 'desenhamos o contorno'"? O contorno foi feito em "Black". Eddie Vedder recusou que fizessem um vídeo para a música; não queria ouvir o pessoal da gravadora que dizia a ele que, "a música era maior que 'Jeremy'", "maior que você ou eu". Vedder manteve-se firme, e a banda o apoiou.
"Algumas canções", ele diz, "não precisam estar entre o Hit nº 2 e o Hit nº 3. Você começa a fazer essas coisas, você acaba sendo esmagado, Não é para isto que nós fazemos música. Nós não compomos para fazer hits. Mas estas canções frágeis acabam sendo trituradas pelo business. Eu não quero fazer parte disso. Eu não acho que a banda queira fazer parte disso".
O assunto logo passa a ser sobre vídeo, e Ament descreve um encontro recente com Mark Eitzel, do grupo American Music Club. Ament e McCready tocaram com a a banda em Seattle, mas com 30 segundos de conversa, Eitzel aproveitou a oportunidade para desafiar Ament sobre o clipe de 'Jeremy". "Eu gostei da sua música", ele falou para Ament, co-autor da canção, "Mas o vídeo estragou. Ele arruinou com a minha visão sobre a música."
A discussão deu uma alfinetada em Ament. "Daqui 10 anos", ele fala para Vedder, "Eu não quero que as pessoas lembrem de nossas canções como vídeos".
Vedder concorda. Ele promete que o novo álbum vai ser realizado antes de qualquer vídeo. "Eu nem mesmo tenho MTV.", ele disse, encolhendo os ombros. "Eu não sei por quê eu estou comentando. As pessoas me param na rua e me perguntam sobre esta banda Stone Temple Pilots. Eu nem mesmo sei quem eles são. Eu estou comprando um sanduíche e eles chegam 'O que você me diz do Stone Temple Pilots?' 'Você deve Ter visto o vídeo'. 'Eu não', ele diz. 'Eu não tenho MTV'.
Ament conta para Vedder sobre o vídeo "Plush", cujo vocalista se apropria dos maneirismos de Vedder. Vedder já ouviu sobre isto antes. Aliás, ele ouve isto diariamente. Dos fãs, dos amigos, mesmo de um músico francês que o cumprimentou pela música e pelo novo cabelo curto alaranjado. (O cabelo de Vedder ainda está longo e castanho).
"Aparentemente, é algo que o cara também deve estar tendo que lidar", sugere Vedder. "É algo que eu deveria sentir simpatia? Siga com os seus próprios passos, cara. Eu não acho que eu segui os passos de alguém. Eu não segui os passos de Andy Wood. Eu não estava seguindo os passos de Kurt Cobain, embora os passos de Kurt Cobain, sejam um dos melhores passos a serem seguidos. Mas eu e Beth fazíamos parte da cena de San Diego. Nós sabíamos de tudo o que estava rolando, e é pequeno o bastante para saber. Estes caras são de lá? Eu nunca ouvi falar deles." Fim de papo.
Por muitas horas mais, Vedder e Ament relembram a estranha confusão dos últimos poucos anos. Vedder confessa para Ament que já não é mais fácil; que as aparições no palco são mais duras agora. É mais difícil, ele diz, ir para o palco cantar as canções do jeito que elas deveriam ser cantadas. E embora Vedder seja de beber somente ocasionalmente, ele tem levado para o palco uma garrafa de vinho tinto para dar uns goles. Quando a conversa passa a ser o falecido Andrew Wood, todavia, Vedder reflete.
"Eu admiro Andy", ele diz. "Eu me relaciono com ele às vezes. Não sobre as drogas - eu não preciso de drogas para fazer a minha vida trágica - mas como as coisas estavam indo muito bem para ele. Ele não sabia." Vedder pára. "Há uma canção dele, que eu ficaria orgulhoso de cantar. Eu não vou dizer a você qual é. Mas havia uma canção dele que sempre me pegou. Algum dia, eu vou cantá-la".
Vedder pede licença para ir ao banheiro. Ament balança a cabeça. "Primeira vez que eu ouvi isso", ele diz com um sorriso.
São duas da manhã, numa noite fria em junho. Ament e Vedder ficam tremendo de frio na esquina do Moore Theater. Não parecem ansiosos pelo término da noite. Mexendo as chaves dos carros com as mãos, eles continuam falando embaixo do letreiro escurecido. Hoje é noite de formatura em Seattle. Os últimos visitantes de bares e casais dos bailes de formatura passam por eles na rua, ninguém reconhece os dois músicos, exceto um formando tonto, vestindo um terno vermelho. Por alguns intantes, ele fica olhando para eles de perto, repetindo bêbado, vagarosamente para ele mesmo: "Eddie, Eddie, Eddie, Eddie, Eddie", ele diz e vai embora.
"Eu não sei se foi a cerveja ou a companhia ou o que", comenta Ament , "mas hoje à noite, eu estive em um lugar que eu não vinha há tempos".
"Eu também", diz Vedder, "Muita coisa mudou por aqui".
"Chega-se a um ponto, em que tudo volta para o jeito como era", diz Ament. "Nós estamos neste momento agora. Nós voltaremos a tocar lá novamente. Nós voltaremos a ser os 5 caras que querem trabalhar juntos".
Vedder coloca as mãos até o fundo dos seus bolsos. "Eu realmente gostaria disto", ele diz.
Os dois parceiros de banda permanecem no escuro por mais 10 minutos, falando sobre Oliver Stone, sobre 'Reservoir Dogs', sobre atitudes na banda e sexismo na estrada, sobre o orgulho pelas novas canções e sobre o mais recente plano de Vedder. Ele sempre pode vender cassetes solo fora de sua casa por $1,50. Finalmente, o frio derruba eles.
"Vejo você amanhã", diz Ament, seguindo para o estacionamento na rua.
"Espere", diz Vedder, "Eu irei com você".
"Vai se foder", grita um coro de fãs perto do palco. Há pouca poesia no público italiano. O estádio de futebol romano, está tomado por 40.000 pessoas hoje, mas muitas delas não estão interessadas em assistir outra banda além do grupo principal - o U2.
"Me foder?", repete Vedder, da boca do palco. "Vou dizer a você; você me fode e o Bono vai foder com você!"
A banda parte para "Even Flow" e tenta armar um consenso, bom ou mau, qualquer coisa. O esforço pela aceitação termina em nada. Esse é um dos poucos países no mundo que não foram atraídos pela música do Pearl Jam e a banda sentiu a frieza no primeiro dos dois shows de abertura para a mega turnê do U2 Zooropa 93. Seria fácil descrever este público como apático, mas segundos depois que eles deixaram o palco, o DJ da Zooropa põe para tocar "Another One Bites the Dust" do Queen e o estádio inteiro começa a agitar, instantaneamente.
De volta ao camarim, a banda anda em círculos, meio abatidos, escolhendo coisas para comer. Abbruzzese já tinha um plano para amanhã: "Eu vou abaixar a plataforma da bateria para poder ver o público. Eu vou me conectar com essas pessoas."
Depois de alguns minutos, Vedder aparece alegre e encontra alguns fãs americanos. "Eu gostaria que nós tivéssemos tocado em algum clube aqui", ele fala para eles, autografando algumas camisetas. Ele e Beth Liebling vão para a plataforma de mixagem para assistir o U2 com o resto da banda. Bem antes, um grupo de grandes supermodelos e de quase supermodelos se posicionam atrás dele, falando e gesticulando, tirando fotos, tentando chamar a atenção dele. Vedder se mantém atento ao show. Finalmente, uma das modelos tenta se apresentar para ele. Ela fala fervorosamente com ele, mexendo as mãos. Vedder acena com a cabeça educadamente e volta a prestar atenção no show. Tempo total de investimento: 3 segundos.
Mais tarde, a banda vai para o ônibus da turnê para voltar ao hotel. Presos no tráfego, a multidão de fãs italianos descobre o ônibus e tentam olhar para dentro dele. Suas expressões são inconfundíveis. "Oh", eles parecem dizer, "É a outra banda". Mas mesmo assim eles permanecem olhando, como se estivessem olhando dentro de um aquário. "Eu gostaria que nós tivéssemos tocado uma data em algum clube aqui", diz Vedder, para ninguém em particular.
A conversa passa a ser Neil Young e o show que farão com ele, em Dublin, na Irlanda. A banda está falando sobre a próxima chance de tocar com Neil Young "Rockin' in the Free World". Mas mesmo este assunto venerável, logo acaba. E ainda as faces romanas olham pela janela do ônibus parado. É perturbador. É como se a Zoo TV tivesse saído do ar e o teste padrão fosse o Pearl Jam.
Até cerca de um mês antes de seu lançamento, o álbum ía se chamar "Five Against One". O nome surgiu durante um encontro em um quarto de hotel em Roma, enquanto a banda aprova as mixagens finais do disco. Já há palpites da gravadora. Vocês podem aumentar o vocal do Eddie? E há o problema do vídeo. Nós podemos tomar uma decisão sobre o diretor? E as entrevistas para a imprensa. Vocês têm que fazer algo. As respostas são: "Não, realmente", "Não" e "Mais tarde". Decisões giram ao redor deles a cada hora, mas Pearl Jam pretende tomá-las do jeito deles. O título do disco parece apropriado. A frase vem de uma canção nova, "Animal".
"Para mim, aquele título representou a quantia de esforço que você faz para gravar um disco", diz Gossard, que selecionou a frase. "Sua própria independência - sua própria alma - contra todos além. Nesta banda, e eu acho que no rock em geral, a arte de fazer concessão é quase tão importante quanto a arte da expressão individual. Você pode ter cinco ótimos artistas numa banda, mas se eles não podem fazer concessões e trabalhar juntos, você não tem uma ótima banda. Isso (o título) deve significar algo completamente diferente para o Eddie. Mas quando eu ouvi aquela letra, ela fez muito sentido para mim."
Agora é o segundo dia em Roma. Vedder senta no topo das arquibancadas desta tarde extremamente quente de julho. Ele veste uma camisa de turista que diz EU X GRUNGE. Ele é quase um anônimo neste país, e ele gosta disto. "Esta coisa toda do sucesso, eu sinto que todos os outros da banda estão bem mais feliz com isso do que eu", ele diz. "Despreocupados. Eles meio que deixam rolar. Eles se divertem com isto, mesmo. Eu não consigo fazer isto. Eu não penso que eu sou melhor (do que eles) por causa disso. Eu não sei. Eu apenas não me sinto como uma pessoa tão feliz". Ele encolhe os ombros. "Eu simplesmente não sou. O que eu aprecio é ver música, assistir. Ver Neil Young. Ou ver o Sonic Youth de cima do palco. Isto que é legal para mim. Música é um meio poderoso para propiciar uma história. Mas a melhor coisa é que você tem que ter volume. Você deve tocá-la alta. Eu faria qualquer coisa para estar envolvido com música. Você nem mesmo precisaria me pagar".
Vedder confessa ter algumas dificuldades recentes em compor para o Pearl Jam. Como Gossard já havia apontado antes, os outros membros da banda agoram o chamam de porta-voz da banda, e com isso vem uma certa "ética de Eddie". Vedder trabalha duro com o empresário Kelly Curtis para manter o preço dos ingressos baixo e policiar a poderosa máquina de promoção da Sony Music. Mas aí vem a grande contradição. Os artistas que ele mais admira são aqueles que deram as costas para todo o maquinário do cenário rock - como Henry Rollins e Ian MacKaye do Fugazi.
E Vedder, o cara que nunca dormiu, ainda não dorme. "Nunca", ele diz. "Nunca". E agora eu realmente não durmo. Eu tenho aquela coisa de espasmo. Eu levanto e vou 'Aaarrrgh'. Eu levanto e começo a andar. Eu ando pela sala, a TV ligada e a minha face nela, e eu começo a pirar. Eu quero chamar um amigo e dizer 'Eu perdi a cabeça? Eu preciso de perspectiva.' Eu falei com Henry Rollins um dia. Eu disse, 'Cara, eu preciso de alguma perspectiva bem rápido'. E eu me senti mal fazendo isto. Porque eu estava chamando ele, pelas mesmas razões que os garotos me chamam."
Você questiona, é claro, se isto tudo não faz parte do elaborado mecanismo de defesa de Vedder. Como atacar o homem, que ataca a si mesmo? Como duvidar da credibilidade de um homem que ganhou MTV Video Award por "Jeremy" e falou para 50 milhões de telespectadores, "Se não fosse a música, eu teria me matado na frente daquela sala de aula". Para toda sua plena honestidade, há muitos mistérios que Vedder ainda guarda. Até mesno um parceiro de banda próximo como McCready diz: "Não, eu não sei se nós já tivemos aquela conversa grande, íntima, ainda. Nossa relação ainda está crescendo. Nós provavelmente teremos uma em breve."
Questionado sobre a sua infância, Vedder guarda isto no seu peito. Ele conta uma anedota sobre servir mesas em Chicago. Ele conta sobre ter mudado para San Diego e comprar cadeiras e de seu primeiro rádio stereo ruim. Ele conta sobre gravar shows, coisa que ele ainda faz com seu microgravador de bolso. Tudo soa perfeito para fazer um mito popular, mas quando confrontado com questões sobre a sua infância, Vedder se torna vago. De suas antigas memórias, ele somente diz, "Eu estou confuso. Eu estou atrapalhado com tudo. Eu não sei o que está acontecendo agora."
Ele ainda responde as correspondências dos fãs, embora com menor frequência e o tour manager Eric Johnson às vezes visita o escritório em Seattle, tarde da noite para encontrar Vedder respondendo chamadas de fãs com problemas. Mas, como Vedder cuidadosamente disse a um fã em San Francisco, depois de um show: "Eu na verdade não estou dentro da sua cabeça, eu não estou pensando em todos os seus pensamentos particulares". O fã pareceu bem desapontado. Vedder, por outro lado, aprendeu o efeito público de escrever bem sobre personalidades problemáticas.
"Eu estava surpreso e um pouco transtornado que tantas pessoas se relacionaram (com as letras)." diz Vedder. "Todo mundo foi à loucura. Na verdade, agora eu entendo mais esses canais de religião. Todo mundo precisa de alguma coisa." Ele faz uma pausa longa. "Não deveria haver messias na música. A música em si, a música, eu não me importo em cultuá-la. Eu tenho feito isso. E isso traz uma certa admiração pelas pessoas que a fazem - ou respeito ou qualquer coisa - mas eu nunca pedi o pêlo do nariz do Pete Townshend."
De volta à Roma, no segundo dia, Pearl Jam oferece uma performace combativa. "Da próxima vez, eu encontrarei novamente com vocês num clube aqui," diz Vedder, para alguns poucos aplausos. Mais tarde, ele começa a incitá-los, falando que o estádio deles, foi construído para futebol, e não para música. E, embaixo de um símbolo da ZOO TV em neon, ele se diverte provocando a platéia, "Nós somos animais?" Nunca deve ser dito, que Vedder não se diverte com o "gosto agradável da mão que o alimenta". hoje, sua camiseta verde contém uma mensagem colada: PAUL IS DEAD (Paul é o verdadeiro nome do Bono). Termina o show, com Vedder usando uma enorme máscara de mosca, dançando como se preso em uma teia. É a resposta do Pearl Jam para a ZooTV. Muitos fãs talvez não entenderam, mas um que entendeu foi o Bono, que assistiu curiosamente a apresentação.
Bono responde mais tarde, no palco. "Então vocês não podem tocar música em um estádio de futebol?", ele indaga. "Bem, se você faz, então é melhor que seja com boa música." Mas antes do final do show, ele apresenta o Pearl Jam como "uma ótima banda de rock & roll". E Vedder, Liebling e Ament ficaram todo o resto da noite com Bono e The Edge, conversando intensamente em um jantar, debatendo as questões do dia, a conversa emocional sobre o sucesso. E, às seis da manhã, Vedder e Ament trocam abraços com Bono e The Edge, nas ruas vazias de Roma, chegando ao ônibus bem na hora exata de partirem para Dublin.
"Eu tive todas as minhas perguntas respondidas", confessa Ament. Ao longo dos shows com o U2, ele conversou com os quatro membros da banda (U2), sobre a questão da grandiosidade versus a pureza. "E eles basicamente me disseram isto: 'Nós éramos como vocês. Nós costumávamos ser anti-anti...Nós éramos irados. Mas nós amamos tecnologia, como você amam o que vocês amam. Na próxima turnê, nós podemos tocar para 3000 pessoas. Mas isso é onde nós estamos hoje. Daqui a 10 anos, vocês contam para nós onde vocês estão."
Hoje, em Dublin, um dia antes do Pearl Jam tocar para um público de aproximadamente 50.000 pessoas, em Slane Castle, Abbruzzese permanece em pé e observa como alguns moradores de Dublin com 30 anos ou mais jovens cantam firmemente na rua versões de "Black" e "State of Love and Trust". Abbruzzese está sorrindo, colhendo flores na Grafton Street, brincando com crianças na rua. "Lá se foi o claro brilho do sol da Itália. Neste lugar é chuva...rostos pálidos...discussões românticas na rua...isto dá a sensação de estar em casa."
Em qualquer outra parte, há rumores de que o guitarrista Mike McCready tinha saído da linha, correndo pelado pelas ruas de Dublin tarde da noite, no dia anterior. McCready, hoje, comprando fitas de shows ao vivo, não confirma e nem nega isto, por trás de seus óculos escuros espelhados. "Eu amo este lugar", ele diz.
CURIOSIDADE
Eddie Vedder sempre entra "acompanhado" de uma garrafa de vinho para os shows da banda. Alguns fãs, próximos ao palco (geralmente membros do fã-clube), acabam sendo presenteados com um gole deste vinho, principalmente quando a banda toca "Crazy Mary", no trecho em que é cantado 'Take a bottle, drink it down, pass it around'.
No camarim do show, no dia seguinte, há poucos adornos do renomado rock. Nenhum bar, nem aparelho de som tocando música animada, nem segurança, nem supermodelos. Apenas Vedder falando por qual motivo ele não poderia se importar menos.
"Eu fico embarassado com alguns dos 'veteranos' da música", ele diz. "Eles tinham a imagem (de macho) original deles, e eles ainda continuam perseverando com isto. A coisa do sexo, eles ainda exploram isso. Essa coisa do "sujeito-que-parece-com-seu-avô", é tão tola, deixa você nauseado. Esses caras ainda estão usando a velha versão do que é sexo, os biquínis e línguas. Está acabado. Eu me identifico com as pessoas que estão surgindo agora, e não com aquilo. Aquilo já era."
A relação de Vedder com Liebling, uma escritora, é uma das mais fortes em sua vida. Eles estão juntos há 9 anos. Talvez em breve, ele diz, eles se casarão. E quando for a hora de começar uma família, ele prevê que será um pai dedicado. Ele cita o pai de Michael Jordan, então ainda vivo, como um exemplo perfeito. "O fundamento da paternidade é que, se eles decidiram ter filhos, isso significa que eles estão dando uma chance para alguém além, e eles farão o que puderem para fazer aquela criança crescer e então poder brilhar", ele diz. "Eu sinto como que, nos últimos 20 anos, tem havido um 'esvaziamento' da paternidade. Eu estou dentro da realidade. Eu estou pronto para sair o mais fora da realidade."
Agora sentando na sombra do Castelo de 200 anos, Slane Castle, e o sol brilhando sobre a sua face, Vedder é questionado sobre a sua juventude. Quem era seu pai?
"Eu nunca conheci meu pai verdadeiro", ele diz. "Eu tinha um outro pai, com quem eu não me dava bem, um cara que eu pensava que era o meu pai. Havia brigas e cenas ruins, ruins. Com pouca idade, eu era 'dono do meu próprio nariz'. Eu nunca terminei o colegial."
Ele era Eddie Mueller, então. Depois de se mudarem brevemente para San Diego, seu pais voltaram para Chicago. Vedder, que logo em seguida assumiu o sobrenome da mãe dele, passou a correr atrás da sua carreira na música. Houve um rude adeus para o seu padrasto. Eles não se falam desde então. Mais tarde, Vedder estava vivendo em San Diego, quando sua mãe veio visitá-lo de Chicago, com algumas novidades importantes.
"Ela veio com um propósito específico", ele diz, "para me dizer que esse cara não era o meu pai. Eu me lembro que na ocasião eu falei, 'É claro que ele não é meu pai, ele é um porra de um babaca'. E ela disse, 'Oh, Eddie, ele realmente não é o seu pai.' "
"Num primeiro momento, eu fiquei super feliz com isso, daí ela me disse quem era o meu verdadeiro pai. Eu tinha encontrado o cara três ou quatro vezes, ele era um amigo da família, um amigo distante. Ele morreu de esclerose múltipla. Então, quando eu o encontrei, ele estava em um hospital. Ele tinha mulestas ou talvez ele estava em cadeira de rodas."
Vedder brinca com seu sapato rasgado. De algum modo, um bom tempo depois, as palavras fluem facilmente, enquanto ele relembra, ou, como ele fala, "o dia em que eu descobri".
"Havia um piano na sala", ele prossegue, "e eu me lembro de desejar que eu soubesse tocar uma canção feliz. Eu estava feliz por cerca de um minuto, e então, eu fiquei arruinado. Eu tinha que lidar com o fato de que ele estava morto. Meu verdadeiro pai não estava sobre a Terra. Eu tinha que lidar com a raiva, por não terem me contado antes, não terem me contado, enquanto ele estava vivo. Eu era um grande segredo. Segredos são más notícias. Segredos sobre adoções, ou qualquer coisa desse tipo, devem ser contados, não mantidos. Isso simplesmente se torna maior e mais obscuro e mais profundo e mais feio e confuso.
Musicalmente, eu tentei imaginar se eu tinha um objetivo, que era, acima de tudo, deixar algo para meu filho, se eu tivesse um para ouvir. Eu realmente sou 'junior'. Meu nome verdadeiro é 'alguma coisa-'alguma coisa' terceiro." Os fãs podem encontrar esse nome nos créditos da canção "Alive" do álbum 'Ten'.
O verdadeiro pai de Vedder, que morreu, era um músico, que tocava órgão e cantava em restaurantes. Logo que Vedder soube a verdade sobre a sua herança, outros parentes seguiram o mesmo caminho.
"Havia todas aquelas coisas que eles queriam dizer", ele relembra, "como, 'é daí que vem o seu talento para a música', e eu pensava 'Vai se foder'. Na época, eu tinha 14 ou 15 anos, eu nem sabia que porra estava acontecendo. Eu aprendi como tocar guitarra, guardei todo o meu dinheiro para comprar equipamentos, e você está me dizendo de onde isso veio? De algum porra de um músico de bar arruinado? Vai se foder."
Vedder diz isso tranquilamente, pois o tempo deve ter suavizado um pouco as suas emoções. Não é supresa que "Quadrophenia", o álbum do The Who, de 1973, clássico sobre a juventude inglesa, foi o 'Catcher in the Rye' de Vedder (ele uma vez disse a um entrevistador, 'Eu deveria enviar para Pete Townshend cartões de Dia dos Pais'). A música salvou minha vida, ele diz, mas a turbulência da juventude de Vedder, ainda alimenta a música. É um círculo doloroso. "Meus parentes estão muito orgulhosos de mim, agora", ele diz, "e novamente, eu estou agradecido por eles terem me dado um valioso material de vida para eu escrever."
Recentemente, um encontro com um primo de seu verdadeiro pai, deixou Vedder com um sentimento de proximidade. "A coisa estranha", ele diz, "é que há muitas similariedades entre mim e meu pai. Ele não teve nenhum impacto na minha vida, mas aqui estou eu. Eu pareço com ele. As pessoas na minha família - eles não podem evitar isto - elas olham para mim, como se eu fosse um substituto. É daí que vem 'Alive'." Ele faz uma pausa. "Mas agora, eu tenho orgulho pelo cara. Eu aprecio minha herança. Eu tenho um sentimento profundo por ele, em meu coração."
Divirta-se com isto. Você sempre ouve essa frase em volta de Vedder. Ele raramente tem uma resposta. Divirta-se com isto. Certamente, seu sonhos com o rock se tornaram realidade: cantar "Masters of War" em um concerto em homenagem a Bob Dylan, no último ano; cantar com o The Doors no Rock & Roll Hall of Fame e finalmente encontrar seu herói Pete Townshend. Mas divertir-se, se aproxima de colocar o pé próximo aos dos rock stars que aparecem em revistas, aqueles que jogam seus cabelos para cima, aqueles que levaram o Pearl Jam a escrever a declaração definitiva "Blood" - "It's my bloooood!".
Gravem nossos shows, levem nossos álbuns, passe a música para a frente, não nos glorifiquem. Vedder, há um tempo atrás, se desfez de sua jaqueta marrom barata, um presente de Gossard para ele, a única refeita e vendida pela indústria da moda por U$1000, como uma peça da vestimenta grunge. A banda atualmente condena o stage diving, por razões de segurança e mesmo os dias de Vedder escalar as estruturas do palco, parecem ser história. Ele oferece uma interessante perspectiva.
"Aquele negócio de escalar, aconteceu quando eu disse 'Olhem isto, é o extremo que sinto sobre essa situação. É o quanto eu estou sentindo intenso este momento.' Você não pode fazer isto por muito tempo, porque o que eles realmente querem ver, é que você arranque o seu braço fora; segure o seu braço; gire ele espirrando sangue e, acredite em mim, se você fizer isso, a platéia ficará balística. Embora, você só consiga 4 shows bons fazendo isso. Quatro shows bons, e então, você é apenas um torso e uma cabeça, tentando fazer com que um de seus companheiros de banda, dê um último hurrah e arranque a sua cabeça. O que eles provavelmente não fariam, o que realmente seria infernal."
"Mas", diz Vedder com um sorriso, "eles diriam, 'cante com o seu diafragma, ao menos você ainda tem isto para continuar'."
A platéia em Dublin está violentamente acordada, abastecida por fúria e cerveja. Van Morrison fez um show para os seus conterrâneos, e foi recebido como um tio amado. Ele está fora do palco, apenas alguns minutos antes do público, em antecipação ao show do Pearl Jam, vir para a frente. "Eu amo um pouco de pressão no ar", diz McCready, olhando a massa efervescente de fãs irlandeses. "Um pouco de estranheza na platéia, boa ou ruim. É o que nos faz prosperar."
Pearl Jam toma o palco e a platéia se aproxima mais, pressionando as barreiras. A região próxima ao palco é brutal, e os seguranças já estão retirando os semiconscientes, um por um, antes mesmo de uma nota ser tocada. Vedder caminha usando uma máscara de gorila, retira-a e inicia "Why Go".
É uma platéia feliz, na beira do perigo e, hoje, eles estão tendo o melhor do Pearl Jam. Sobre o palco, a banda está estreitamente se esquecendo de cada um ou deles todos, de maneiras diferentes, saltando, pulando e girando, apenas esquecendo das cabeças um dos outros com os instrumentos. A platéia volátil não assusta Vedder; ele está cantando seriamente para aquelas faces sérias ouvindo-o, do mesmo jeito que ele ouvia o The Who - com todas as suas vidas ligadas. Ele fica na ponta do palco, apenas olhando eles, e volta para compartilhar isso com Liebling, que grava tudo em uma câmera Super 8.
Era o show que eles estavam esperando, uma olhada no futuro. "Se tudo terminar amanhã", diz Abbruzzese, "eu serei o atendente de posto de gasolina mais feliz que você já viu".
O melhor de tudo, é que o Pearl Jam não é uma banda com somente um álbum muito, muito grande. "Para que parte desta merda esquisita aconteça, não há escola para ir", diz Vedder. "Isso é o mais esquisito disso tudo. Mas algum desses caras, eles ajudam um pouco. O conselho de Bob Dylan foi 'Vá para Dublin'. Eu escrevi um cartão postal para ele hoje".
"Ele diz: 'Feito' ".