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ARTIGO: "A Sombra e a Escuridão", Revista 89 Rock - 2000 |
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"O mundo do rock está em estado de alerta. O Pearl Jam, que muitos consideram a maior banda de rock na ativa, lança no dia 16 de maio seu novo disco (o sétimo!), Binaural. O álbum, que marca os dez anos de carreira da banda de Seattle, traz várias novidades: o baterista Matt Cameron (ex-Soundgarden) substitui Jack Irons; o produtor Tchad Blake entra no lugar do velho colaborador Brendan O'Brien; os ingressos da turnê americana serão vendidos pela grande rival do grupo, a Ticketmaster; o primeiro compacto do disco é uma balada sinistra escrita pelo baixista Jeff Ament, 'Nothing as it Seems'; e o som do grupo está mais soturno do que nunca. A boa nova é que os integrantes da banda, sempre avessos à imprensa, decidiram conceder à Revista Rock uma de suas raras entrevistas - é a única para a imprensa sul-americana - sobre o novo álbum. Participaram da conversa, realizada no Hotel The Mercer, em NY, os guitarristas Stone Gossard e Mike McCready, o baixista Jeff Ament e o baterista Matt Cameron. a única ausência foi o vocalista Eddie Vedder, o mais conhecido ermitão do rock'n´roll. Apesar da fama de reservados, os caras da banda pareceram bastante relaxados durante a entrevista. E, mesmo com os milhões de discos vendidos, continuam sem fazer pose." RR: Vocês sabiam que os fãs do Pearl Jam no Brasil fizeram um abaixo-assinado para a banda tocar lá? Afinal, quando vocês vão? Stone: Nós já planejamos fazer shows no Brasil várias vezes, mas sempre deu errado, por problemas de data ou financeiros. Mas nós vamos tocar lá com certeza. Quem sabe depois da turnê americana? Jeff: Se nós ainda aguentarmos um ao outro no final da turnê, talvez em janeiro ou fevereiro do ano que vem. Matt: Eu ouvi dizer que o público vai à loucura com as bandas de rock americanas, que os fãs brasileiros são muito apaixonados. Mike: Por favor, não nos odeiem, a gente já está chegando! Stone: Sim, nós temos uma relação enorme de músicas para tocar lá. Já são sete discos! RR: Além dos shows, o que vocês gostariam de fazer no Brasil? Matt: Eu gostaria de encontrar uma boa praia para surfar. Jeff: Eu queria ir a museus de arte e bons restaurantes, comer pratos típicos. E conhecer brasileiros que me mostrassem as coisas boas e ruins das cidades. Mike: Eu gostaria de caminhar pelas ruas, ver o que rola culturalmente, conhecer a arquitetura. Eu adoro conhecer lugares históricos. RR: Vocês conhecem alguma coisa da música brasileira? Matt: O Charles Gavin, dos Titãs, que eu conheci em um estúdio em Seattle, me mandou a coleção completa dos Mutantes. Eu já havia lido sobre eles na revista 'Mojo' e tenho muitos amigos que são fãs da banda, mas não imaginava que a música era tão criativa. Eu pirei no som deles, ainda mais porque adoro música psicodélica dos anos 60. RR: O que os fãs devem esperar do novo álbum: o bom e velho Pearl Jam ou muitas novidades? Mike: O bom e novo Pearl Jam. Com o Matt na bateria, nós chegamos a outro nível de musicalidade. Espero que os fãs gostem de ouvir tanto quanto a gente gostou de fazer. RR: A escolha de 'Nothing as it Seems' como compacto não foi um pouco arriscada, já que ela é uma das músicas mais sinistras do disco? Stone: Isso mostra que a gente não se leva tão a sério. Quando surgiu a idéia de lançá-la como compacto, toda a banda achou ótimo. Em vez de pensar se as rádios iriam tocar, quisemos lançar uma música que iria deixar as pessoas com vontade de comprar o disco. Talvez seja ou não um sucesso. Há pessoas que vão achar que estamos prejudicando as vendas e outras vão achar que estamos revelando novas faces da banda. Mike: Adoro essa música...É uma canção que me incomoda e, ao mesmo tempo, me agrada. Stone: Não há nada nas rádios que se pareça com ela. As pessoas vão achar interessante que o Pearl Jam possa soar como Pink Floyd... RR: Então o Pink Floyd foi uma referência para essa música, porque me lembrou o som deles... Jeff: Alguém já havia comentado isso antes. A melodia vocal tem um pouco a ver com Pink Floyd sim. RR: Esta é a primeira vez que o Brendan O'Brien não assina a produção de um álbum do Pearl Jam. Por que vocês decidiram trabalhar com o produtor Tchad Blake desta vez? Mike: Para mim, essa é uma pergunta difícil, porque confesso que preferia trabalhar com o Brendan. Tchad teve algumas boas idéias, ele fez um ótimo trabalho nas músicas mais lentas, sobretudo em 'Nothing as it Seems'. Mas as outras músicas foram difíceis para ele, então chamamos o Brendan para remixá-las, para dar mais peso. Eu me sinto mais confortável com o Brendan. Ele tem um cérebro musical. Matt: Há vários produtores que são engenheiros. o Brendan não. Ele é músico, um produtor completo - o que é um fato muito raro hoje em dia. RR: Como terminou a briga com a Ticketmaster? Quem vai vender os ingressos para essa turnê? Jeff: A Ticketmaster vai vender metade dos ingressos para a turnê. Eles têm contratos de exclusividade com 90% dos grandes estádios. Stone: Nós perdemos a briga. RR: Vocês se sentem derrotados? Stone: Não, nós decidimos que isso viraria um assunto secundário e voltaríamos a ser apenas uma banda, a nos preocupar só com a música. Mas tivemos ao menos uma conquista: nos ingressos, vai estar impresso qual valor vai para a Ticketmaster e quanto fica com o Pearl Jam. RR: Que bandas legais surgiram depois da geração de vocês? O que vocês têm ouvido ultimamente? Jeff: Há muita coisa boa rolando. Radiohead tem ótimas músicas, Supergrass é demais. Stone: Tenho ouvido muito Chris Cornell. E a Fiona Apple lançou meu disco preferido neste ano até agora. Matt: Os Melvins. E PJ Harvey. Mike: Ando escutando as coisas mais antigas: Clash, Simon & Garfunkel, Rolling Stones. RR: O que acham de bandas como Creed, Nixons e Days of the New, que têm um som muito parecido ao do Pearl Jam? Matt: Acho meia-boca. Há público para eles, mas não me entusiasmam. Soam um pouco como armação. RR: Vocês têm tocado com alguns de seus ídolos, como Neil Young, Pete Townshend, Nusrat Fateh Ali Khan. Com quem vocês ainda sonham tocar? Stone: Vamos tocar com Joe Strummer (ex-Clash) na turnê européia e com o Supergrass na americana. Frank Black, Iggy Pop e Ben Harper tocaram conosco recentemente. Não podemos exigir mais do que isso. Temos muita sorte de tocar com esse pessoal. RR: Vocês não costumam dar muitas entrevistas. Por que toparam fazer a promoção desse álbum? Mike: Antes, não queríamos fazer divulgação porque havia muita loucura à nossa volta. Agora está mais calmo. Estamos muito animados com o disco. Stone: Reservamos dois dias para a imprensa e quatro meses para a turnê. Isso é uma proporção justa. RR: Isso não significa que vocês estão lidando melhor com as pressões, que estão mais confortáveis com o fato de que são astros de rock? Stone: Estamos mais seletivos, abertos a fazer uma coisa ou outra, mas não tudo que esperam da gente. Dois dias com a imprensa me parece muito razoável. Jeff: As entrevistas nos dão a chance de conversar sobre nossa música, de tentar entender o que fizemos...Não existe essa de assumir que somos 'rock stars'. Nós não fazemos clipes, não aparecemos muito na MTV... Stone: Não temos mansões, ou carros esportes, não mudamos para Hollywood, nem compramos calças de couro. Às vezes nós sentimos os cheiros das mansões, mas pensamos: 'Não, ainda não vai dar'. Matt: Mas, ainda assim, não é uma profissão ruim. Mike: É muito melhor que meu antigo trabalho como garçom. RR: Muitos críticos consideram o Pearl Jam a maior banda do mundo hoje. O que vocês acham desse título? Stone: Qualquer um que tivesse ouvido nossos ensaios no ano passado iria discordar (risos)... Jeff: Acho que somos uma grande banda ao vivo, talvez uma das cinco melhores, mas há dias em que a gente erra. Somos humanos, não virtuoses. Matt: Há muita música lá fora para dizer que uma é a melhor. Mas, para mim, os melhores são os Mutantes. Mike: Os Stones são - ou eram - a maior banda do mundo. Stone: Tudo o que você precisa fazer é olhar para os Beatles e pro Led Zeppelin... RR: Mas vocês estão se comparando com bandas de rock... Stone: Mas pode comparar com bandas novas como o Supergrass, eles são músicos incríveis. Mas eu me sinto muito satisfeito com o Pearl Jam, há muita energia em nossa banda ao vivo. RR: Como anda a relação pessoal de vocês após dez anos de convivência? Vocês ainda saem juntos ou só se encontram para fazer música? Jeff: Saímos hoje tanto quanto no começo. Claro, houve um período de lua-de-mel, no primeiro ano da banda. Depois, cada um quis seu quarto nos hotéis...Isso é natural em qualquer relação. Mesmo com meus melhores amigos tenho períodos conturbados, mas essas são as relações mais gratificantes - quando se passa por tudo e se consegue ficar junto. Mike: Nós temos vidas separadas e projetos paralelos. E nos encontramos para discos e turnês. Assim a gente mantém as coisas andando. Matt: Quando você está gravando ou em turnê, as relações ficam tensas. É saudável sair e voltar recarregado. RR: É essa a importância dos projetos paralelos? Manter a sanidade? Mike: Sim, fugir da loucura e aprender com outras pessoas, aprender a tocar, a relaxar. RR: Para o Pearl Jam, sempre foi importante manter a honestidade e a integridade. Dez anos depois, vocês acham que conseguiram? Mike: A integridade vem da honestidade. Não é algo planejado, é algo que simplesmente acontece. Se você faz música para si mesmo, está sendo honesto. Se você faz música para os outros, como para uma determinada faixa-etária, então está sendo desonesto. Matt: O Pearl Jam é uma das poucas bandas que estão na estrada há tanto tempo e que têm alguma integridade, porque controla cada passo que dá. RR: Vocês acham que estão melhores? Mike: Eu me sinto muito confiante sobre como estamos tocando. E queremos continuar melhorando. Se a gente continuar tocando como na última turnê, esta também vai ser muito animadora. Jeff: Estamos tocando ainda melhor agora que temos um grande baterista. RR: E como está o Jack Irons? Ele vai voltar para a banda? Stone: O Jack decidiu que não seria capaz de sair em turnê, pelo menos não da maneira que gostaríamos. Tomamos, então, uma decisão conjunta de nos separarmos, sem ressentimento. Ele é um cara de família, não gosta de andar de avião... RR: O Matt pode ser considerado oficialmente o baterista do Pearl Jam? Jeff: No momento sim. Não sei se ele vai tomar uma decisão a longo prazo, mas, enquanto topar fazer discos com a gente, ele é o baterista do PJ. RR: Então, Matt, quanto tempo você pretende ficar com a banda? Matt: Pelo menos até o fim da turnê. Mas tenho outra banda e uma família. Minhas prioridades mudaram de dez anos para cá. Mas o Pearl Jam tem sido bem compreensivo com o fato de que não posso me comprometer definitivamente. Mike: Ele é da família. A gente sente como se ele já fosse da banda. RR: Matt, você acha que teve sorte de ter tocado com duas grandes bandas dos anos 90, o Soundgarden e o Pearl Jam? Matt: Claro. Agradeço sempre à minha estrela da sorte pelo fato de ter tocado com grandes bandas. RR: Quais as diferenças entre tocar com o PJ e com o Soundgarden? Matt: No Soundgarden, tínhamos que tocar o mais alto e mais forte possível. No Pearl Jam as coisas são mais abertas. Termino um show do Pearl Jam menos cansado do que com o Soundgarden. Mas há também semelhanças. Uma delas é que as duas bandas têm vocalistas com um senso de ritmo muito forte. RR: A palavra 'grunge' ainda significa alguma coisa para vocês? Stone: Para mim, 'grunge' é uma palavra cômica, sempre foi. Um termo que foi lançado para criar um 'hype'. Mike: É uma etiqueta. Mas também é algo que surgiu da música. Como chove muito em Seattle, a gente passava o dia na garagem tocando. Jeff: Acho que o Mudhoney foi a banda que se encaixou melhor ao termo, talvez o Nirvana também. Nunca vi o Pearl Jam como uma banda grunge. Nós não surgimos daí, mas fomos influenciados por eles. Matt: O 'grunge' para mim é um marco na história, representa uma revolução musical que aconteceu e que acabou. Então, se é necessário ter uma etiqueta para isso, tudo bem.
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