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ARTIGO:
Entrevista "Vedder não acabou", New York News - 1999 |
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“Ser um músico me pareceu natural,” diz Eddie Vedder do Pearl Jam em uma rara entrevista com o The News. “Eu sempre soube que eu queria fazer isso. A parte difícil foi esse negócio de rock star. Eu não compreendia isso, eu não compreendia toda a adulação. É como que ...que, não há nada que possa ser feito com isso. Você perde a sua privacidade. Você perde sua habilidade em observar as situações sem mudá-las por inteiro.” Mas Vedder, que está na cidade para um show beneficente com Pete Townshend, não está reclamando. É mais como se ele estivesse pensando alto - algo que os fãs reconhecem dos álbuns do Pearl Jam. Ele gosta de olhar para todos os lados das coisas e ele nem sempre escolhe apenas um. Se Vedder normalmente nunca fala de sua vida fora dos palcos, ele casualmente menciona sobre o vínculo pessoal que ele sentiu durante uma colaboração com Pete Townshend em um evento beneficente para vítimas de esclerose múltipla. “Meu pai tinha esclerose múltipla, também”, ele diz. “Eu não conheci meu pai. Eu só cruzei com ele algumas vezes.” Se ele lamenta sua perda de privacidade, poucos álbuns nos anos 90 retrataram a infância perdida como ‘Ten', o álbum de 1991 do Pearl Jam, que ficou nas paradas por 5 anos e vendeu 10 milhões de cópias. Se ele impressionou os fãs de rock ao dizer, “eu não acho que isso signifique alguma coisa”, quando aceitou o Grammy de 1996, dado ao Pearl Jam; sua colocação também fez alguns pensarem por que a banda subiu no palco para aceitá-lo. Agora, porque o álbum “Yield”, de 1998, não foi multi-platina tão rápido quanto os 4 discos anteriores - que conjuntamente venderam mais de 30 milhões de cópias - Vedder está ouvindo murmúrios de que o Pearl Jam está acabado, que talvez eles cruzaram a última estrada. Não espere que Vedder siga essa idéia. Ninguém assina contratos com gravadoras para não vender discos, mas a turnê de 98 foi um sucesso imenso, e o próximo álbum deles já está a caminho. Para Vedder é oportunidade; não crise. “Agora eu estou em uma boa situação”, ele diz, sentado em um grande sofá rodeado por uma guitarra, um toca-disco laser, um belo caderno de música e um pequeno cálice de vinho, com o qual ele coloca um maço de cigarros American Spirit. “Eu faço música em respeito à música, e eu tenho um público do qual eu me orgulho”. E o Pearl Jam não está saindo de vista. Eles têm uma faixa chamada “The Whale Song” no novo álbum beneficente “Music for Our Mother Ocean - Vol II”. E Vedder canta duas canções - ‘Heart to Hang Onto” e “Magic Bus” - em um CD de Townshend em prol da Maryville School, que cuida de crianças que sofreram abuso. E também há “Last Kiss”, uma canção que a banda produziu somente para os fãs no ano passado. Ela estourou no Top 10 das rádios no último verão. Esse último desenvolvimento parece deixar Vedder encantado. Aqui está um cara que se move ao longo da história do rock - cantando com Townshend e Neil Young, se juntando a Bob Dylan em um tributo, cantando canções de Jim Morrison com os remanescentes do The Doors - e agora ele tem um grande sucesso com o melodrama de J. Frank Wilson, composto em 1964, que fala de uma garota morta em um acidente de carro. O que ele pode dizer? “Estou satisfeito que as pessoas tenham gostado dela.” A verdade é que Vedder é um viciado em música. O Pearl Jam tem tocado de tudo, desde James Taylor até “Fuck the Police” do NWA, e nesta noite, Vedder se juntará a Pete Townshend para cantar 7 canções em um concerto beneficente para a Maryville School. “Cantar canções de outras pessoas é como manter as suas roupas sobre o corpo”, ele diz. “Eu gosto disso. As pessoas não ficam pensando que isso veio de você.” Ele está aludindo ao fato de que todas as suas canções são extremamente dissecadas como um feto de porco em um laboratório de biologia. Coisa com a qual ele não se importa de jeito nenhum. “Eu gosto que as pessoas analisem meu trabalho. Eu fico feliz em saber que elas se importam a ponto de se envolverem tão profundamente.” Em um espírito similar, o Pearl Jam - para preocupação da indústria musical - deixa os fãs gravarem os seus shows. Embora, aqui também, as regras não sejam absolutas. “Nós fizemos um show extra em San Diego para 300 pessoas. Nós pedimos para que eles não gravassem. Eu simplesmente queria me sentir livre e aberto. Se eu quisesse tentar uma canção do Nick Cave, eu não queria que as pessoas ouvissem isso sem parar.” Alguns momentos devem ocorrer apenas uma vez. “É como a história da noite em que Jimi Hendrix e Jim Morrison se juntaram. As pessoas dizem: ‘Oh, eu gostaria que eles tivessem gravado aquilo'. Sua imaginação leva você a todo tipo de coisas, a maior parte delas, ótima. Mas, na verdade, pode ter sido um monte de Blues simples, embriagado. A idéia, o romance, é melhor.” Mas, ao mesmo tempo, o Pearl Jam regularmente se envolve em problemas do mundo real. Eles tocaram em inúmeros shows beneficentes em defesa dos direitos das mulheres, para o Rock the Vote [grupo que estimula o exercício do voto entre os mais jovens, já que o voto não é obrigatório nos Estados Unidos], organizações que cuidam de pessoas portadoras de deficiências, entre outras causas. Eles desafiaram o Golias Ticketmaster - por seus consideráveis preços altos e inconveniências - desistindo somente quando não tiveram apoio do Departamento de Justiça e do meio musical. Eles falam coisas positivas a respeito das rádios-piratas. Em outras palavras, eles desafiaram o estrelato com coisas mais significativas. “Se você energiza as pessoas que te ouvem, para que observem os problemas e compreendam suas liberdades, isso é realmente positivo. E como artistas, eu acho que nós temos uma responsabilidade.” É claro que essa atitude pode dar ao cara a reputação de ser extremamente sério. O que Vedder simplesmente não liga. “Você escuta esse tipo de coisa...eu não sei. Eu quero dizer que muito disso é verdade. Eu sou muito sério. Eu abordo a música com seriedade. Mas não é como se eu me refugiasse em um lugar e ficasse por lá. O que eu posso fazer? Eu desisti de tentar controlar a minha imagem há muito tempo.” Ele pergunta se um visitante pode ter ouvido falar de Billy Murray, uma das primeiras estrelas a vender muito discos. Um velho ator de teatro de variedades, que se especializou em leituras dramáticas de canções como “Take Me Out to the Ballgame”, “Meet Me in St. Louis, Louie” e “By the Light of the Silvery Moon”. Entre 1903 e 1927, Murray tinha 169 hits na parada, incluindo 18 que foram nº 1. “Ele foi o rock star da época dele”, diz Vedder, “e hoje, nós não temos idéia de quem ele seja. O estrelato não dura para sempre. Como músicos, tudo que nós podemos fazer é continuar tentando ‘arremessar' algumas coisas na atmosfera.” Duas décadas são uma eternidade na cultura pop, mas você não consideraria um gap muito grande entre a geração de Pete Townshend e a de Eddie Vedder. O guitarrista e compositor do The Who, 54, Pete Townshend e o vocalista e letrista do Pearl Jam, 34, Eddie Vedder, aparecem em diferentes períodos da linha do tempo do rock'n'roll, ainda que eles coexistam harmoniosamente no novo Pete Townshend Live, um álbum beneficente gravado em Chicago em 1997 e 1998. Na parte dois do álbum, Vedder, creditado na capa apenas como “convidado especial”, se junta a Townshend nas canções "Heart to Hang Onto" e a clássica "Magic Bus". O catalisador do projeto foi uma infortúnia performance em Chicago, durante a turnê Psychoderelic de Pete Townshend, em 1993. “Passados 11 anos sem beber, eu decidi tomar uma garrafa de vodca antes de subir ao palco”, ele diz. “Eu me confundi terrivelmente [durante o show] e eu queria voltar e fazer as coisas direito”. Townshend retornou para encabeçar dois concertos beneficentes que angariaram US$600,000 para a Maryville Academy, de Chicago, uma instituição para crianças que sofreram abuso físico, sexual ou emocional. Todos os ganhos dos artistas resultantes da venda do Pete Townshend Live serão doados à instituição. Durante o primeiro retorno de Townshend, Vedder o convidou para um jogo do Chicago Bulls e voluntariamente se ofereceu para cantar no concerto. O dueto foi feito sem ensaios. “É uma coisa boa eu ter ouvido esses discos [do The Who] centenas de vezes durante a minha juventude”, diz Vedder. “Eu conheço essas canções desde os meus 17 anos e elas continuam ressoando”. Ele, particularmente, ficou comovido em cantar "Heart to Hang Onto", uma canção resultante da colaboração de 1977, entre Townshend e o baixista do The Faces, Ronnie Lane, que morreu de esclerose múltipla em 1997. “Quando Pete introduziu a canção, ele mencionou que Ronnie havia falecido naquela semana”, diz Vedder. “Eu não tinha ouvido sobre isso ainda e eu me lembro de ter pensado que era a mesma doença que acometera meu pai.” Townshend e Vedder já eram fãs um do outro antes deles se encontrarem pela primeira vez, em 1993 (Townshend disse que seu empresário tinha recebido telefonemas de pessoas ligadas ao Pearl Jam falando sobre o interesse de Vedder em fazer uma versão teatral do Quadrophenia . Vedder diz que foi Townshend quem primeiro o procurou). Quando os dois se conectaram, após um show de Townshend, as conversas foram sobre angústia, não sobre arte. “Eddie estava em uma grande agonia”, diz Townshend. “Ele estava preocupado por ter se tornado uma grande celebridade e por nunca mais poder sentar no meio do público para assistir aos shows de seus artistas favoritos sem ser molestado. Então, ele veio pedir conselho a um ‘velho sábio'.” Vedder relembra: “Eu estava em um momento terrível. Eu adorei o show intensamente, mas eu estava a ponto de me acabar mentalmente. Nós apenas olhamos um para o outro pelos primeiros dois minutos.” “Pete realmente me ajudou com um monte de coisas. Eu tive um amigo durante uma situação ruim, a qual eu não entendia. Em 45 minutos, Pete me deu informações que eu não teria em nenhum outro lugar. Eu simplesmente apreciei sua sabedoria e experiência.” Considerados embaixadores da cultura jovem, em suas respectivas gerações, Townshend e Vedder compartilham um carinho pelo rock clássico e um desdém por muito do que hoje freqüenta as paradas de sucesso. Em meio a um monte de boy bands, a cover do Pearl Jam, “Last Kiss”, um hit de 1964 de J. Frank Wilson & the Cavaliers, conquistou as rádios neste ano. Originalmente, era um single gratuito de Natal distribuído aos membros do fã-clube oficial. A canção decolou após fazer parte do álbum beneficente No Boundaries (“Sem Fronteiras”). “Eu fiquei feliz que uma canção pôde atravessar os mecanismos normais da indústria e encontrar uma espécie de sucesso democrático, quando não se imaginaria que isso fosse possível”, diz Vedder. Desprezando a perda da força do rock ao longo dos anos 90, Townshend diz: “Isto está sendo sublimado. O rock só foi significante quando ele surgiu no começo dos anos 60, de forma brutal. Ele era importante porque demandava aquilo que você ouvia”. Vedder é otimista sobre o fato do rock recuperar a sua glória. “As coisas caminham em círculo e as pessoas que hoje em dia estão ouvindo esse pop vazio, se elas amam música, irão amadurecer e procurarão coisas melhores.” Maturidade modificou a abordagem de Townshend para "My Generation" e outros hinos do The Who, carregados de fúria adolescente. “Agora eu coloco o meu jeito nelas. Quando você canta canções baseadas em lamúrias ou vitimização, nunca é confortável. Mas alguém tem que cantá-las. Aquelas primeiras canções eram sobre estar contra os seus pais, professores ou o sistema e você sentia aquelas coisas intensamente. Eu nunca representei naquele período. Agora eu imponho a mim mesmo uma disposição e digo que preciso fazer justiça para essa canção”. A tática surpreende Vedder, que ficou maravilhado com o revival de Quadrophenia, feito por Townshend, há 2 anos. “Eu não o vejo como um ator porque ele escreveu isso, de jeito nenhum. Aqueles são trabalhos do passado, mas ainda é ele quem está fazendo; o cara que realizou isso naquele período. É até mais excitante ver que ele sobreviveu e viveu outro período a partir daquilo. É inspirador.”
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