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ARTIGO: "O poder da música", entrevista com Eddie Vedder, The Nation - 2003


Entrevista feita por Ann Powers, ao The Nation, com 5 artistas que falaram separadamente: Eddie Vedder, Tom Morello (guitarrista do Rage Against The Machine, agora no Audioslave), o músico de hip hop Boots Riley, Amy Ray (Indigo Girls) e Carrie Brownstein (Sleater-Kinney - uma das bandas favoritas do Eddie Vedder).

O ponto em comum entre eles é a preocupação com questões político-sociais. O tema da matéria é justamente o poder da música como instrumento de protesto, algo que vem desde os anos 60, com artistas como Bob Dylan.

Com a atual confusão na cena mundial, os 5 artistas foram questionados sobre como a música pode ser efetiva. Segundo a matéria, apesar deles terem sido entrevistados em separado, todos compartilham de um respeito mútuo.

Aqui está transcrita apenas a parte relativa ao vocalista Eddie Vedder e um pequeno comentário de Carrie Brownstein sobre Vedder.

Esse é um momento estranho para a música política no rock. Grandes estrelas como Bruce Springsteen e Tom Petty estão fazendo músicas que lidam com essas questões, mas, quanto à música de protesto, da contracultura, não há muito [disso] no radar. Vocês [os músicos da entrevista] são muito explícitos a respeito de seus pontos de vista - como as coisas estão indo na estrada [em turnê]?

Vedder: Como um músico em turnê, eu tocaria em 30 lugares na Europa em 5 semanas e não somente passaria pelos [lugares] e veria as paisagens, mas realmente teria uma troca com as pessoas. Tudo que eu provavelmente deixei de aprender por não ir à faculdade, quanto à geografia, história, estudos sociais e religião, eu sinto que posso mais ou menos compensar, meramente estando atento quando estou em turnê. Isso te coloca em uma posição suscetível, porque você volta aos Estados Unidos e está feliz por ter voltado, mas, ao mesmo tempo, você sente que pode compartilhar com outras pessoas o que você tem visto. Sabe, você quer dizer: "Eu vi alguns exemplos em que as coisas funcionam um pouco melhor, quanto à assistência à saúde, controle de armas, sistema de prisão moderno, guerra contra as drogas" - você quer ser capaz de compartilhar isso e não se sentir como se estivesse sendo antipatrióta ou super crítico.

Eddie, quando você estava trabalhando com o Ralph Nader [candidato ao governo americano pelo Partido Verde, na eleição de 2000], você basicamente fez aquilo como um cidadão em particular, certo? Um voluntário?

Vedder: Bem, um cidadão em particular com uma guitarra. Eu fui [ao primeiro comício que ele compareceu, em Seattle, 2000] só pra, por assim dizer, assistir. Mas eu tenho seguido Ralph por um bom tempo. Quando eu era criança, parecia que havia heróis cívicos, crescendo numa parte de Chicago, onde 2/3 das escolas eram de afro-americanos e Martin Luther King era tão grande quanto Michael Jordan. Antes de eu ser adolescente, eu conhecia o nome de Ralph Nader e o conhecia como um tipo de herói cívico. Sabe, você tem alguém que é um ótimo candidato e um candidato tão autêntico no que diz respeito ao seu histórico, se comparado a um tolo desajeitado vindo do Texas - eu acho que é essencial que nós tenhamos ele [Nader] nos debates.

Então, a música pop é apenas um entorpecente, ou o quê?

Vedder: Se as pessoas quiserem seguir o aspecto das bebedeiras e "armas" do rock'n'roll, então está em ordem. E deveria estar. Uma das melhores formas pra lidar com um problema, de vez em quando, é "dançar sobre eles". No final de um dia, [em que] você efetuou todo o seu ponto de vista - talvez você tenha votado neste dia ou obteve um registro [pra votar], você conversou com amigos e mais ou menos lidou com essas questões, dentro do possível. Você não será capaz de fazer qualquer coisa relativa a isso à 1 da manhã. Você estará tomando uma cerveja com um amigo, e daí o que você faz nesse momento? Você se diverte. Há uma hora e um lugar para tudo.

[comentário sobre músicos que, estando vinculados a grandes gravadoras, acabam tendo sua imagem ou música em campanhas de marketing]

Vedder: Eu soube disso quando eu ouvi o Buzzcocks em uma propaganda da Toyota, eu não fiquei propriamente perturbado. Quero dizer, a reação inicial foi de choque; ao mesmo tempo, é uma boa canção e eu sei que eles não venderam 1 milhão de cópias. Mas eu me sinto [perturbado] talvez, com uma banda como o Counting Crows em um comercial da Coca-Cola, eles devem saber que o marketing da Coca é para as crianças e visando contratos com escolas para pôr propaganda e máquinas de refrigerante dentro das escolas. Eu simplesmente não gostaria de fazer parte de algo assim.

Vocês eram todos jovens para sentirem falta da contracultura dos anos 60. Há uma sombra daquilo em vocês? Como vocês vêem aquele período hoje? Como vocês estão conectados ou desconectados a ele?

Vedder: A trilha sonora para a paz, tem definitivamente estado em poder de... se tornou apenas os Beatles, John Lennon e Dylan, que é um bocado do legado de mais alto nível de tudo que eles já fizeram musicalmente. Por isso que é bom ouvir uma canção como "People Have the Power" da Patti Smith, para manter isso [como algo] mais atual. Mas sabe, ao mesmo tempo, eu estava tentando escrever uma pequena coisa para Ralph Nader, quando eu toquei em alguns comícios diferentes, eu estava criando algumas coisas, daí eu encontrei por acaso "The Times They Are A-Changin" (do Bob Dylan) e de fato é tão relevante nos dias de hoje como ela sempre foi.

E sobre o restante de vocês? Quem são seus parceiros?

Carrie Brownstein: ...Pearl Jam, mais o Eddie Vedder, que nós conhecemos. Em termos de alguns dos nossos objetivos, usar a música como um meio pra de fato se comunicar e se conectar com as pessoas, eu definitivamente me sinto em afinidade com ele.

Vedder: Para mim, são pessoas como Medea Benjamin [fundador do Global Exchange]. Eu vi o Bruce Springsteen em Chicago, e ele, no final do show, realmente mencionou de forma eloqüente duas coisas: sobre não esquecer que os direitos civis ainda estão em debate e que, como cidadãos americanos, nós temos um direito sobre eles também, e que nós temos o direito de participar de um debate aberto e honesto sobre se devemos ou não mandar americanos para outros países para lutarem em uma guerra.

Eis a questão de 1 milhão de dólares. Se vocês pudessem passar uma mensagem para seus fãs agora, qual seria?

Vedder: Eu acho que todos deveriam sentir que há poder quando se juntam e vão para as ruas. No dia do protesto pela paz do Westlake Center, em Seattle, eu estava fora da cidade. Eu conversei com o [ator] Tim Robbins, e ele e a Susan [Sarandon, atriz e esposa de Tim] estiveram no Central Park naquela manhã, ele disse que foi bonito, cerca de 40.000 pessoas lá. Eu vi cerca de 30 segundos disso na [emissora de TV] CNN. Era domingo de manhã, e eu assisti ao This Week e ao Face the Nation e estava pronto para dar uma martelada na minha cabeça [por não ter podido participar]. É uma coisa tão positiva estar lá e se sentir ativo. É como Natal. Te faz se sentir bem.


     
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