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ARTIGO: Entrevista com Mike McCready, por Rick Turner



A Conversation with Pearl Jam Guitarist Mike McCready
Host: Rick Turner
Guest: Mike McCready
June 25, 2004
Site de Saúde “Health Talk”

Uma das bandas fundamentais dos anos 90 foi o PJ. Venderam milhões de álbuns, fizeram tours mundiais e lutaram por preços de ingressos justos para seus fãs. Ao mesmo tempo, o guitarrista Mike McCready estava lutando outra batalha; uma que o impacta todos os dias. A batalha contra a doença de Crohn.

Mike McCready Tells All
Rick:
Há muita reserva, por falta de um termo melhor, uma espécie de síndrome com as pessoas que possuem Crohn? Elas não querem compartilhar o fato com outras pessoas?
Mike:
Com certeza. Sim, pq é totalmente embaraçoso. No sentido que é algo que, bem, vc sabe, basicamente, eu cago nas calças. E é sangue, é dor e tudo é embaraçoso. E se vc é um garoto na escola, é totalmente aterrorizante ter algo assim acontecendo com vc. Se vc está namorando, se vc está no colegial ou algo assim, com certeza isto seria apavorante, não importa em qual idade – a incontinência e todos estes tipos de coisas. Isto [incontinência] é diferente daquilo [a doença de Crohn], mas vc tem que explicar a quantidade de dor que vc está sentindo. E daí, se ocorre um acidente, é como se isso não se transferisse. As pessoas ainda pensam, bem, vc não poderia segurar? Não, eu não posso.
Rick:
E daí se adiciona a esta mistura o fato de se ser um garoto que tem Crohn e como possivelmente se deve ficar frio e explicar aos amigos que não pode sair com eles no sábado à noite?
Mike:
É o jeito que tenho lidado com isso e eu não tinha isso no colegial, mas eu tenho tido em outras funções sociais e coisas assim, meio que sempre tem que ter uma recusa. Dizer: “ei, talvez eu não possa sair hoje à noite porque não estou me sentindo legal. Talvez eu não possa sair para um grande show, sem saber onde terão banheiros ou se vou ficar muito tempo no carro. Talvez eu não possa fazer isso. E sei que há algumas limitações, mas tento ser criativo para contornar estas limitações. Como, talvez sexta eu não possa ir para a festa, sabe. Ou eu posso ir por um tempo e daí terei que ir embora.
Rick:
O que vc pode dizer aos jovens em particular, para ajudá-los a lidar com isso, se eles acabaram de ser diagnosticados.
Mike:
Bem, há uma organização que eu sou muito ligado a ela. É chamada Crohn's &
Colitis Foundation of America (www.ccfa.org), e eles possuem seções regionais que podem te colocar em contato com os médicos, grupos de apoio e com a literatura. Para mim, falar com outra pessoa que tem isto é um tipo de coisa saudável. Porque aí eu sei: ‘ hey, este jovem tem isso desde que ele ou ela tinha 16. Já passaram por 6 cirurgias. O que eles estão tomando agora? O que eles têm que fazer para lidar com isso? Como posso aprender com estas pessoas? E daí, esperançosamente, eles podem aprender comigo.

The First Attack
Rick:
Leve-nos de volta para quando vc foi diagnosticado com Crohn.
Mike:
Eu tinha me mudado para Los Angeles com alguns amigos meus para tentarmos fazer uma banda por lá, e nós estávamos vivendo muito na escassez. Mas um dia, levantei e saímos, e senti alguma coisa no meu intestino. Senti como se tivesse uma dor no estômago, algo assim. E daí, de repente, tive que ir ao banheiro imediatamente. Quando finalmente encontrei o banheiro, havia sangue, muco e uma dor extrema. Eu estava tipo: “Opa, algo está errado comigo. Não sei o que é. Foi algo que comi?”. Isto continuou pelos próximos 3 ou 4 dias, por uma semana. E daí, eu procurei um medico e eles, na época, disseram, parece que vc tem colite ulcerativa. Elas (Crohn's e a ulcerative colitis) são similares, só que a colite pode acabar se vc passar por cirurgias e Crohn volta mesmo se vc passar por cirurgias. De qualquer forma, tenho uma mistura das duas, pelo o que meu último médico disse.
Rick:
Esta foi a primeira indicação de que algo estava errado?
Mike:
Foi bem a primeira indicação. Colite ulcerativa e Crohn atingem garotos em qualquer idade. Conheço um garoto que tem menos que 1 ano e tem isso. Ela me acometeu aos 21.
Rick:
Então, o que vc sabia, naquele momento da vida, sobre o que eles estavam te contando a respeito do diagnóstico?
Mike:
Eu nunca tinha ouvido falar disso. Eu fiquei “uau, o que isso significa? Eu vou morrer disso? Isto mudou me vida completamente. Simplesmente me fez pensar: “bem, terei que mudar minha alimentação? O que devo fazer para corrigir isso? E, vc sabe, não posso corrigir isso. Pode haver um alívio. Mas há certas coisas que estou fazendo agora, que estão ajudando.

Rock Star Attitude
Rick:
Bem, vc é um rock star. E rock stars, pelo que temos ouvido há anos, têm certos hábitos no estilo de vida, seja a bebida, o fumo, dormir tarde, enfim, as viagens, as pressões. O quanto isto tem sido difícil para vc, lutar com esta doença, considerando-se este estilo de vida? Como vc se adaptou?
Mike:
Esta é uma boa pergunta. Eu passei por todas estas coisas que vc descreveu e não faço isso, nunca mais. Mas eu acho que eu às vezes usava o fato de ter esta doença para “ei, não me importo, vou apenas curtir”.
Rick:
O que tenho a perder?
Mike:
Sim. O que tenho a perder? Vou morrer de qualquer forma. Daí, eu operei nessa mentalidade por um bom tempo e, para mim, não é o jeito certo de prosseguir, nunca mais. Isto é uma atitude derrotista e não uma forma de viver. Eu escolhi agora por viver positivamente e tentar aprender com esta doença e com outras pessoas que a têm.
Rick:
Então, esta mudança, em termos do seu estilo de vida, foi gradual ou vc teve uma epifania?
Mike:
Com certeza foi uma coisa gradual e, na verdade, minha namorada e agora noiva, me levou a fazer isso. “Olha, vc precisa se envolver com a Crohn's & Colitis Foundation. Vc é uma figura pública, vc deveria falar sobre estas coisas”. E quando ela disse isso, naquela hora, pensei: “sim, faz sentido”. Por que tenho sido um baita de um bebê chorão sobre isso?” Sabe, tenho que ir e fazer algo sobre isso. Então, no final foi ela me dando um pontapé na bunda para falar bem claro, sem trocadilhos
Exit Stage Left for the Honey Bucket
Rick:
Quando vc vai ao palco, como vc se prepara?
Mike:
Bem, Rick, a coisa é que não há preparação. Há certas coisas que eu acho que tenho que controlar. Tenho feito estas coisas e ainda tenho tido problemas com isso. Então, é duro. Eu tento comer talvez 2 ou 2 horas e meia antes, só para talvez ter tudo passado pelo meu sistema [até a hora do show]. Às vezes, tenho que tomar Imodium. Mas não estou dizendo que Imodium necessariamente funciona. Tenho tomado isso, e não tem funcionado. Então, não quero que as pessoas pensem que podem se curar com Imodium. Não pode. E vc tem que ficar alerta, basicamente, de onde há um banheiro todas as vezes. Isso é importante. Vc tem que saber onde há um toilet porque vou fazer uma corrida do palco para chegar até lá. [ele usou um trocadilho de futebol americano: “I'm going to make
the 100-yard dash off stage to get there.”]
Rick:
Vc teve ataques no palco e teve que procurar um banheiro?
Mike:
Sim, nós abrimos pros Rolling Stones, acredito que foi em 1996 [1997, na verdade], em San Francisco. E eles são minha banda favorita. Então, eu estava totalmente empolgado, estávamos prontos para irmos pro palco, eram uns 10 segundos pra gente ir pro palco e daí...BAM!!! Tive uma dor abdominal incrível, e tinha que arrumar um banheiro na hora. Porque ela (a doença) não espera, é simplesmente aterrorizante. Cheguei para o Eddie, nosso cantor, “ei, cara, vocês podem abrir com Sometimes, na qual não participo muito?”. E ele: “ok, claro”. Ele não sabia a razão, e daí eu saí em disparada e procurei um banheiro. E, por sorte, os Rolling Stones são tão grandes que eles têm port-a-potties e banheiros sobre o palco. Então, encontrei um e havia uma fechadura nele, daí meu técnico de guitarra me ajudou a destravar a fechadura. Eu estava segurando isso o mais que podia, porque não consigo depois de um tempo. Eu perco [o controle] e é uma grande sujeira, o que já aconteceu centenas de vezes.
Finalmente entrei no banheiro e acabei ouvindo minha banda tocar a primeira canção sem mim, dentro do Honey Bucket [banheiro portátil]. Eu não recomendaria ouvir música de dentro de um velho Honey Bucket. Posso rir disso agora, mas foi um pesadelo completo quando aconteceu.
Rick:
Vc foi capaz de se recompor depois desta canção?
Mike:
Yeah! Eu corri pra lá e toquei. E tem tido vezes em que não saí [do palco], porque não podia cair fora. Estou tocando em frente a 15,000 pessoas e tenho um ataque da doença de Crohn, que é como eu chamo, e aí, eu simplesmente, faço lá mesmo. Não posso sair. Sabe, isto tem acontecido comigo dirigindo por Seattle, tem acontecido comigo indo para o médico e tem acontecido em centenas de lugares.
Rick:
Eu me pergunto, onde neste processo vc compartilhou isso com os outros membros do Pearl Jam?
Mike:
Bem, eles sabiam disso desde que a banda começou, Mas não acho que ele (Eddie Vedder) sabia [foi o último a chegar na banda]. Ele provavelmente concluiu depois, eu contei o fato pra ele depois. E agora eles sabem que quando eu saio do palco, algo está acontecendo e eles improvisam. Eles têm sido muito legais e afáveis.

Tomato Potato – You Decide
Rick:
Então, vc mencionou que dieta é muito importante para vc, especialmente recentemente, vc achou algo que está funcionando muito bem para vc. Há conexão em termos da dieta certa para Crohn, manter a energia pra cima para ser capaz de ser energético e fazer a performance [show]?
Mike:
Yeah, eu acho que é tudo incluso. Tenho que fazer algo positivo. Tenho que comer de uma forma que seja boa para mim. Para pessoas com Crohn's ou colitis, certas comidas, digamos, tomate não faz mal para mim, mas pode ser incômodo para outra pessoa e pode desencadear [o ataque]. É diferente para cada paciente. A coisa que tem funcionado para mim é este livro da Elaine Gloria Gottschall, chamado "Breaking the Vicious Cycle.". E isso não funciona para todo mundo, mas, para mim, tem funcionado. E é basicamente uma dieta sem açúcar, sem amido, então, sem batatas, fritas, nem açúcar refinado. E é difícil. Temos que fazer pão de sementes e este tipo de coisa, mas é a única coisa que ameniza isso, sem precisar de toneladas de remédios. Na verdade, é o melhor que tenho me sentido desde que eu tinha 15 ou 16..
Even Flow - Balance - Harmony
Rick:
Quando vc tem um ataque e a dor é insuperável, que não parece que vai passar, que tipo de técnica para lidar com isso vc tem? O que vc tem pessoalmente desenvolvido ao longo dos anos pra passar por esta situação tão ruim?
Mike:
Às vezes, se vc perde muito sangue, vc não tem energia. Mas se vc tem alguma energia, tento fazer algo positivo, como caminhar ou tentar andar de bicicleta ou algo físico, se vc tem energia. Se não, tento entrar num estado mental positivo. Falar com alguém mais que tenha isso, com alguém que não tem e dizer: “olha, estou meio ruim agora, vc me ajudaria?” O apoio da família e amigos é imenso. O fato deles se importarem é maravilhoso, mas eles tb não sabem o que vc está passando, pq eles não têm isso. Eu acho que o aspecto da vida é mental, físico e espiritual. Estes 3, se eles estão bem, não querendo soar “new agey” ou nada assim, mas se eles estão em harmonia, daí eu acho que há um efeito positivo sobre a doença de Crohn.
Rick:
Mike, eu queria saber, como sua condição tem causado impacto em seu trabalho como artista e se tem.
Mike:
Eu sei que tem, pq eu vou [para isso] na minha mente ou é a área para onde vou quando tento compor. Acho que vou para aí, quando componho ou quando toco com os caras. Pensarei sobre algum garoto que tem a doença e está lidando com isso, que eu tenha encontrado um mês antes e penso: “vou pôr esta emoção enquanto toco”. E, honestamente, faço isso. Sei que isso necessariamente não define quem eu sou, mas tem, em certos casos, subtraído da minha vida. Mas tendo a olhar para isso como uma soma. Não vivo com Crohn; Crohn vive comigo. E isso veio de uma mulher que tinha [a doença] e gosto de ver desta forma. E daí uso isso para criar, se posso.
Rick:
Onde vc espera estar em 5 anos com isso?
Mike:
No futuro, espero que achem uma cura para a doença. Para mim, pessoalmente, quero continuar fazendo os shows beneficentes, ser parte da CCFA e espero ficar [com a doença] controlada. Mas vc sabe, bate na madeira, nunca se sabe com esta doença. Pode voltar como antes, e tem estado na minha vida desde os 21. Eu tenho 38 agora.

You Gotta Have Guts Run
Rick:
O quanto de explicação [sobre a doença] vc tem que dar para as pessoas em geral?
Mike:
Vc tem que dar muita. Eu basicamente digo pras pessoas, imagina ter a pior diarréia que vc já teve em sua vida, com dor, que vc tem que sair, procurar onde tem um banheiro na hora. Pode imaginar? Sabe o que é?
Rick:
Como vc tem se envolvido com estas pessoas jovens ou com quem vc esteja envolvido, em situação similar? Como vc pode se conectar com estas pessoas?
Mike:
[August 28th, 2004, Mike McCready participará do You Gotta
Have Guts fundraiser para a Crohn's & Colitis Foundation of America.] No último ano, cerca de 830 pessoas participaram. Eu tenho um time chamado Rolling Crohn's. Nós temos nas camisetas, uma língua de papel higiênico dentro da boca dos Stones. Nós corremos e levantamos dinheiro para as seções.

     
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